Skip
repetitive navigational links
L-Soft  -  Home of  the  LISTSERV  mailing list  manager LISTSERV(R) 14.4
Skip repetitive navigational links
Previous messageNext messagePrevious in topicNext in topicPrevious by same authorNext by same authorPrevious page (August 2004)Back to main NABOKV-L pageJoin or leave NABOKV-LReplyPost a new messageSearchProportional fontNon-proportional fontLog in
Date:         Mon, 2 Aug 2004 15:53:42 -0700
Reply-To:     Vladimir Nabokov Forum <[log in to unmask]>
Sender:       Vladimir Nabokov Forum <[log in to unmask]>
From:         "D. Barton Johnson" <[log in to unmask]>
Subject:      Portuguese translation of Pale Fire & Rorty article
Content-Type: multipart/mixed;

---------- Forwarded Message ---------- Date: Monday, August 02, 2004 4:03 PM -0300 From: Jansy Berndt de Souza Mello <[log in to unmask]> To: Vladimir Nabokov Forum <[log in to unmask]> Subject: Re: O amor, em Vladimir Nabokov, tem essa consequência.. ? Here is the Nabokov sighting that I had sent you a few weeks ago. It was published in the "Folha de São Paulo" special edition. The first text offers a translation of Rorty´s comment on Pale Fire, since a new revised translation of this novel was announced at that time. The second text is Michael Maar´s. REVIVENDO OS VIVOS Patrimônio Vladimir Nabokov/Reprodução [Image: m0407200401.jpg] O escritor Vladimir Nabokov FILÓSOFO NORTE-AMERICANO DISCUTE "FOGO PÁLIDO", DE VLADIMIR NABOKOV, REEDITADO AGORA NO BRASIL por Richard Rorty A imaginação, dizia Wallace Stevens, é a mente reagindo à pressão da realidade. Mas é do interesse da realidade -ou seja, da imaginação dos mortos- que nenhuma nova reação seja necessária: que a imaginação dos vivos não possa fazer nada senão reiterar lições previamente aprendidas e exemplificar verdades já sabidas. Resenhadores de bom senso devem pressupor que não se pode escrever nada de genuinamente novo, pois só assim estarão em condição de julgar o livro que estão resenhando sem o perigo de se verem julgados por este. À maneira do resenhador de bom senso, o leitor comum sente-se nervoso diante de livros que não são suficientemente semelhantes aos livros que ele leu no passado. Vladimir Nabokov (1899-1977) escreveu livros nada parecidos aos demais e que raramente tiveram boas resenhas. A maior parte dos críticos fez eco ao dito de Samuel Johnson -nada de estranho pode durar- e cuidaram de diagnosticar as esquisitices de Nabokov como índices de seu desdém egoísta pela realidade, desdém que encobria sua incapacidade de imitar a realidade persuasivamente. Simon Raven, resenhando "Fogo Pálido" em 1962, ano de sua publicação, afirmou que não se tratava de "um romance, mas de um protótipo". A resenha de Saul Maloff explicava que, "desde sempre, a razão de ser do romancista" é "a criação de um mundo", ao passo que Nabokov criara apenas "uma constelação de bibelôs elegantes e maravilhosos -por definição, uma arte menor". Resenha atrás de resenha reconhecia o engenho de Nabokov e lamentava sua auto-suficiência, seu deleite com os próprios truques, truques que punham a nu a sua falta de respeito pela realidade e pelo leitor comum. Dwight Macdonald declarou o livro "ilegível", sublinhou que, mesmo em seus melhores momentos, Nabokov era "menor" e insistia que "os esmeros técnicos que Nabokov dedica ao projeto são tão ostensivos que acabam por destruir todo o prazer estético do leitor". Incomodado pelo fato de Mary McCarthy ter considerado ""Fogo Pálido" uma criação de perfeita beleza, simetria, estranheza, originalidade e verdade moral", Macdonald explicava que tanto o romance como a resenha de McCarthy eram "exercícios de engenho despropositado". Nabokov não tinha nenhum interesse na criação de um mundo como aquele a que Raven, Maloff e Macdonald estavam acostumados. Certa vez, declarou que "dizemos que uma coisa é semelhante a tal outra coisa, quando o que realmente adoraríamos seria descrever algo que não tem par na terra". Era esse o anseio que tanto incomodava tantos resenhadores. Para aqueles que gostariam que a realidade fosse tratada com o devido respeito, esse anseio é um índice de auto-suficiência egoísta. "Egoísmo" é o nome que a realidade dá a tudo o que chama atenção para si mesmo -tudo o que é estranho, duro de entender, difícil de acompanhar. Quem respeita a realidade, quem tem certeza de que não há por que submetê-la a novas pressões, dirá que tudo o que é digno de nota já faz parte da realidade e precisa apenas ser representado com precisão. O que não faz parte da realidade é subjetivo, pessoal, idiossincrático, tolo, pueril, evanescente, indigno de nota. Pois, para olhos respeitadores, a realidade é a única autoridade legítima. O anseio do poeta em exercer pressão sobre a realidade parece não apenas fútil, mas ainda moralmente equívoco. Agora, os críticos e historiadores da literatura começaram a reconhecer que o livro, afinal de contas, há de durar. Aos poucos, o romance vai adquirindo a aura de um clássico, obra de uma das imaginações mais poderosas que o século 20 criou. Essa espécie de reconhecimento é um dos expedientes de que a realidade lança mão para não ter que admitir o golpe que levou. Como se, na calada da noite, sem ninguém por perto, a realidade emitisse pseudópodos para incorporar o último corpo estranho. De manhã, a realidade estará tão fresca e rija quanto antes (mesmo que um pouquinho crescida). E algo que de fato não tinha par na terra se converte em mais um fato terrestre e objetivo, à espera de ser observado. Às vezes, porém, quando o corpo estranho é grande demais ou complexo demais, o processo de assimilação não estará concluído quando a manhã chegar. Nesses casos, podemos surpreender a realidade sugando a vida de uma metáfora ou convertendo um paradoxo numa platitude ou dando feições de clássico a um escândalo. "Lolita" não se parecia a nada que Morris Bishop, bom leitor, bom homem e melhor amigo de Nabokov em Cornell, tivesse lido; seu asco diante da sordidez de Humbert impediu-o de ler o manuscrito até o fim. Trinta anos mais tarde, a neta de Bishop teve de ler "Lolita" na escola secundária. À medida que "Lolita" e "Fogo Pálido" se convertam em leitura curricular e tema de prova, Humbert Humbert e Charles Kinbote virão a ser personagens literários conhecidos, componentes familiares da realidade em que crescemos. Quanto mais isso aconteça, mais provável será que ambos se fundem à figura de seu criador, mais provável será que os leitores de Nabokov pensem que estão lendo sobre Nabokov, quando na verdade estão lendo sobre esses dois monstros encantadores. Quanto mais se faça essa identificação inconsciente, menos se recordarão as pessoas de que Humbert e Kinbote manipulam as famílias Haze e Shade e, em especial, seus membros mais jovens, Lolita Haze e Hazel Shade. Brian Boyd, cuja esplêndida biografia serve bem à causa de Nabokov, ao tornar menos fácil a incorporação de seus livros, conta que, entre todos os personagens de seus romances que Nabokov admirava como seres humanos, Lolita só perdia para Pnin. Mas os leitores de Lolita muitas vezes têm dificuldade para conseguir focalizá-la. Parecem não lembrar de nada além da criatura de Humbert, sua invenção: a ninfeta, mais que a garotinha. De modo que é difícil aceitar a idéia de que ela fosse um esplêndido ser humano. Mesmo assim, como os leitores de "Lolita" recordarão vagamente, a garota era valente: de algum modo, ela conseguiu se livrar de Quilty e encontrou um bom homem, capaz de lhe dar um filho. Constituiu um lar para ele e para a criança que devia nascer perto do Natal em Gray Star, "um povoado no noroeste mais remoto", onde faz muito frio. Pensando bem, Nabokov diz em alguma passagem que Gray Star é "a capital do livro". É então que nos damos conta novamente: Humbert era o único a pensar que havia inventado Lolita; nós não tínhamos por que achar o mesmo. Nós deveríamos lembrar que Humbert era dado a esquecer: os soluços de Lolita durante a noite, seu irmão morto, a criança que teria substituído o irmão. Como esquecemos? Esquecemos porque Nabokov cuidou que esquecêssemos temporariamente. Ele programou tudo para que esquecêssemos primeiro e lembrássemos depois, confusos e culpados. Seu livro segue nos manipulando mesmo depois de fechado. A razão pela qual será relativamente difícil transformar "Lolita" em um clássico é que nós, guardiões da legitimidade, servos da realidade, só podemos fazer comentários abalizados sobre um romance e encontrar nele ilustrações admiráveis de verdades gerais se o tivermos sob controle. Temos que ganhar distância dele, a fim de observá-lo fixamente, por inteiro. Mas Nabokov cuida que, justo quando pensávamos ter recuado alguns passos e encontrado o lugar correto para observar o livro em perspectiva, tenhamos a sensação fantasmagórica de que é o livro que está olhando para nós de uma distância considerável e às risadelas. O embaraço resultante costuma se manifestar na forma de exasperação renovada diante do egoísmo de Nabokov, de seu gosto infantil pelos truques e pela novidade tola. O que vale para "Lolita" vale para "Fogo Pálido". Quando se lê o livro pela primeira vez, nós nos absorvemos numa boa história, narrada por um senhor meio esquisito, mas encantador, e isso antes mesmo de chegar ao fim da introdução. O que vem em seguida -os 999 versos rimados de "Fogo Pálido"- soa como uma interrupção ligeiramente infeliz. Talvez não seja justo forçar um amante de boas histórias a atravessar laboriosamente um poema longo antes de retornar à trama. Mas vamos lá, dizemos ponderadamente, o poema não é tão longo assim. Depois de nos perturbarmos um pouco com a história do suicídio de Hazel Shade no segundo canto e de nos entediarmos um pouquinho com as reflexões sobre a morte no terceiro canto e sobre o processo criativo no quarto canto, tornamos à história que o poema interrompeu. Voltamos à companhia de Kinbote, intrigante, mas dúbia também, e começamos a nos divertir com seu jeito de se intrometer alegremente no que, em teoria, é um comentário ao poema que já começamos a esquecer. Cinqüenta páginas depois, esquecemos tudo a respeito de John Francis Shade (1898-1959, a introdução já dizia, vale lembrar, que ele morrera logo depois de escrever "Fogo Pálido", pobre homem!). Pois agora estamos imersos nas aventuras de uma figura bem mais interessante: Charles Xavier Vseslav, último rei de Zembla (reinante entre 1936-1958). Se o único grande acontecimento na vida de Shade parece ter sido o infeliz suicídio de sua jovem filha, a história da juventude de Xavier é repleta de incidentes. Mais ainda, ela possui aquele profundo interesse humano que sempre se prende às histórias da realeza, para não falar daquele fremitozinho extra que sentimos ao ler sobre a cópula de jovens faunos. Cem páginas mais tarde, estamos convencidos de que Charles Kinbote e Charles Xavier são a mesma pessoa. Isso nos proporciona não somente a satisfação de saber que nosso interesse por Kinbote foi recompensado, mas ainda a sensação basbaque de que a realeza achou por bem nos tratar como confidentes. Um ex-rei, triste, mas bonito e bem lido, confia em nós a ponto de nos contar coisas que pouquíssimas pessoas poderiam adivinhar. Shade aparece de vez em quando, e suspeitamos de que ele também pode ter sido clarividente o bastante para perceber, como nós, quem Kinbote de fato é. Mas as aparições de Shade são sempre sucedidas e obliteradas pela revelação de algum fato novo e surpreendente sobre nosso notável anfitrião e comentador. É tão-somente nas páginas finais do romance que somos novamente forçados a pensar seriamente em Shade. Pois agora algo de fato acontece: ele é morto. Shade retorna à história de Kinbote no mesmo momento em que Gradus, o regicida enviado pelo governo revolucionário de Zembla, está a ponto de cumprir sua missão. Tão logo Shade morre, o romance começa a cair em pedaços. Nossa atenção é subitamente puxada de volta ao poema que esquecemos por tanto tempo. Pois Gradus surge no momento em que Shade finalmente entrega a Kinbote o manuscrito de "Fogo Pálido". Enquanto Shade, caído no chão, se esvai em sangue, Kinbote corre para dentro da casa, a fim de buscar um copo d'água para o amigo moribundo e esconder o manuscrito sob uma pilha de galochas de ninfetas dentro de um armário. Após alguma demora desagradável (Kinbote tem que gastar algum tempo com a viúva de Shade, a polícia e coisas do gênero), ele pode enfim recuperar o manuscrito. Ele o lê rosnando, "como um jovem e furioso herdeiro que percorre o testamento deixado por um velho impostor", dando-se conta de que o poema não trata dele mesmo, mas de seu autor. Nós, leitores, a essa altura completamente emaranhados às esperanças e aos temores de Kinbote, nos surpreendemos a compartilhar a decepção avassaladora de Kinbote, muito embora nós mesmos já tenhamos lido o poema e saibamos muito bem que tratava dos Shades, e não da derrocada da monarquia em Zembla. Nós também nos perguntamos como Shade pôde ser tão insensível e cruel a ponto de não fazer nenhum uso do material maravilhoso que seu amigo Kinbote lhe oferecia constantemente. Entretanto as dúvidas que nós, monarquistas leais, temos deixado impacientemente de lado ao longo de 200 páginas começam a refluir. Talvez (aliás, muito provavelmente) não sejamos os confidentes de um rei, mas as vítimas de um lunático. Zembla, recordamos, não figura em nenhum mapa que se conheça. Os castelos ao pôr-do-sol começam a ruir diante de nossos olhos. Toda a história mirabolante talvez não tenha sido mais que a invenção de um acadêmico exilado e enlouquecido, um monstro de egoísmo que nos arrebatou com suas fantasias absurdas. A única pessoa sadia, mais ainda, a única pessoa decente à vista (seja no romance, seja na sala onde o lemos) vem a ser o sujeito que esquecemos há tempos, o homem que escreveu o poema cujo acontecimento central nós preferimos não lembrar: o doce e trapalhão John Shade, com seus valores familiares fora de moda. Enquanto vemos ruir os castelos, lembramos que torres envoltas em nuvens são sujeitas a dissolução. E, enquanto procuramos desesperadamente por Nabokov, para lhe pedir que nos leve a seu próprio ponto de vista, que nos mostre de onde observar o romance com clareza, nós nos damos conta de que estamos precisamente onde ele queria que estivéssemos: ouvindo Kinbote dizer: "Muito bem, minha gente, acho que muitos dos presentes neste belo salão têm tanta fome e tanta sede quanto eu, e acho melhor, meus amigos, parar por aqui". É como se Próspero, após explicar que em breve mandará seu livro para o fundo do mar, viesse até a beira do palco para anunciar que haverá frutas e bebidas à venda no pátio logo depois do espetáculo, que os assinantes serão bem-vindos nos camarins, mas que, infelizmente, o autor da peça, que adoraria estar ali para encontrar seus muitos amigos, está fora da cidade. Assim como é preciso muito esforço para lembrar que Lolita soluçava no meio da noite, é também preciso muito esforço para lembrar de Hazel Shade, a moça acima do peso cujo corpo foi retirado do lago Omega no segundo canto. Mas o lago é o traço topográfico central de "Fogo Pálido". A busca de um ponto de vista acabará por conduzir o leitor às margens pantanosas do lago e ao centro exato do poema: "Da margem destacou-se um indistinto/ Vulto que o pântano, voraz, sorveu". __________________________________________________ Os "truques" de Nabokov eram os transbordamentos ebulientes de uma mente bem mais ágil do que a nossa; ele queria aprimorar a si e a seus leitores __________________________________________________ Aos poucos percebemos que a morte mais importante em "Fogo Pálido" é a mesma que importa no poema "Fogo Pálido": não a de Shade, mas a de sua filha. Shade tinha 61 anos quando foi morto por acidente (por um regicida incompetente, se dermos crédito a Kinbote, ou, mais provavelmente, por um lunático à solta, Jack Grey, que confundiu Shade com o juiz que o recolheu a um asilo). Mas sua filha Hazel tinha apenas 23 anos quando sua infelicidade tornou-se insuportável, graças à crueldade de um estudante universitário, Pete Dean, desapontado com a sensaboria de um encontro às cegas. Ficamos sabendo muita coisa sobre o autocastrado Gradus, mas pouquíssimo sobre Pete. É provável que não fosse nenhum monstro, quem sabe até um rapaz decente, um tanto egoísta e afoito -alguém muito parecido conosco. Nós mesmos talvez tenhamos sido um pouco egoístas e afoitos ao esquecer a família Shade tão rapidamente, mas não foi correto da parte de Nabokov embrulhar-nos tanto tempo com aqueles moços floridos, aqueles paladinos da Rosa Negra, toda aquela conversa fabulosa sobre Zembla. Crueldades Seja como for, os Shade não são muito mais reais que Zembla. Afinal de contas, Hazel é um personagem de ficção. Por que a crueldade de Pete Dean deveria ser mais dolorida do que a crueldade de Charles, o Bem-Amado, para com a pálida rainha Disa? Pois, assim como Disa e, de resto, o próprio Charles Xavier, não eram mais que criações ficcionais do ensandecido professor Kinbote, do mesmo modo Hazel não é mais que a criação de um professor exilado de literatura russa e inglesa, sujeito esquisito, dado a truques e fantasias, de nome Nabokov, um professor cuja semelhança com Kinbote é patente no final do livro. Saímos ofuscados dali, fugindo ao som do pano de fundo sendo rasgado às nossas costas, tentando nos livrar da coisa toda como de um amontoado de truques impingidos a nós por um egomaníaco exilado. Foi o que a maioria dos resenhadores de "Fogo Pálido" tentou fazer. Mas tal estratégia não funciona. Pois agora o mundo real recebeu um pequeno golpe, bem ali onde nos esquecemos de Hazel. Mas esse esquecimento não foi uma fantasia. Foi tão real quanto nós. O golpe foi desferido pela imaginação de Nabokov, mas só foi possível com nossa participação entusiástica. Quando lemos pela primeira vez "Lolita" ou "Fogo Pálido" ou "Pnin", podemos rir do começo ao fim de cada uma dessas histórias prodigiosas. Mas saímos das páginas finais de cada um desses romances coçando a cabeça, perguntando-nos se estamos bem, se gostamos de nós mesmos. Nesses três romances, Nabokov dispõe as coisas de tal modo que façamos uma aliança com um determinado personagem (Humbert, Kinbote ou qualquer um dos colegas desdenhosos de Pnin) contra alguém que esse mesmo personagem trata cruelmente. Ele também cuida que pensemos estar ombro a ombro com o próprio Nabokov, com esse escritor tão brilhante, que nos está proporcionando tão bons momentos, cujo engenho nos é fonte de tanto deleite estético. Mas, em todos esses casos, percebemos no final do livro que seria melhor não nutrir sentimentos tão calorosos por esse personagem com quem estivemos perambulando e cuja companhia parecia tão agradável. E isso nos faz pensar se nossa relação com Nabokov é tão transparente quanto pensávamos. Começamos a ter a terrível sensação de que talvez Nabokov não goste tanto assim de nós assim como não gostava dos personagens a quem nos apresentou. Mas valeria ter-nos identificado a outra gente -Shade, Lolita, Pnin- antes que fosse tarde demais. Palhaço anônimo Nosso arrependimento só faz crescer quando ouvimos Nabokov dizer a um entrevistador: "Faz pouco tempo, um palhaço anônimo, escrevendo sobre "Fogo Pálido" numa revista de Nova York, tomou por minhas as declarações do comentador que inventei no livro...". Talvez não nos tenhamos saído melhor que esse palhaço anônimo? Será isso o que Nabokov queria que sentíssemos? Sendo assim, ele é de fato tão insidiosamente cruel, tão egoísta e indiferente quanto seus personagens mais sedutores, não? Não. Nabokov é um autor tão gentil e generoso quanto foi na vida real. Muito embora não tenha a menor vontade de se reunir a nós para comes e bebes depois de tirar sua maquiagem de Próspero, ele tampouco está interessado em nos passar uma rasteira. Ele sabe muito bem que, daqui a alguns dias, estaremos mais felizes e seremos mais sábios por termos sofrido um pequeno golpe. Massageando esse golpe com mais tranqüilidade, perceberemos que, como ele e como todos mais, nós também temos nosso lado Shade e nosso lado Kinbote. O lado que sente compaixão por Hazel e Lolita e o lado que as esquece, o lado que sente pena das dificuldades de Pnin com a língua inglesa e o lado que as acha divertidas às pampas. Quem tiver esses dois lados em si mesmo pode muito bem se tornar mais gentil e generoso ao reconhecer sua própria duplicidade. Quanto mais vezes lemos "Fogo Pálido" e quanto mais vezes o lemos no contexto dos demais livros de Nabokov, mais claramente percebemos que cada um desses lados só emerge à luz do outro: Shade não seria plenamente visível sem Kinbote, nem Kinbote sem Shade. No final da entrevista citada acima, o jornalista comenta que "às vezes me parece que nos seus romances, em "Riso no Escuro", por exemplo , há um traço de perversidade que chega às raias da crueldade". Ele respondeu: "Não sei. Talvez. É claro que alguns de meus personagens são bem bestiais, mas não me importo muito, estão fora de meu íntimo, feito monstros arrependidos na fachada de uma catedral -demônios colocados ali apenas para mostrar que tomaram uma sova. Na verdade, eu sou um senhor afável que abomina a crueldade". Beleza e compaixão Nabokov tornou-se mais afável à medida que envelhecia, escrevia mais romances e dava sovas em mais e mais demônios. Escreveu "Fogo Pálido" quando tinha a idade de Shade, 61, e conferiu a Shade uma espécie de generosidade que não soubera dar, 25 anos antes, a Fiódor Godunov-Tcherdintsev (em "O Dom"). Quando Kinbote pede uma senha a Shade, este lhe diz "compaixão". Nesse caso, podemos ter certeza de que Shade fala por seu criador, que, nas suas "Conferências de Literatura", escrevera: "Beleza e compaixão é o mais perto que chegaremos de uma definição da arte". É tentador afirmar que Kinbote dava-se bem com a beleza, e Shade, com a compaixão, e ainda que vincular a obra dos dois homens produziu o que McCarthy declarou ser "uma das grandes obras de arte do século 20". Mas isso seria simplista demais. Shade saía-se muito bem com a beleza: há versos maravilhosos espalhados em "Fogo Pálido". Kinbote comiserava-se ferozmente por Disa, ainda que apenas em seus sonhos, e estava certo ao dizer que "Hazel Shade parecia-se comigo sob certos aspectos" (e não apenas pela tendência suicida). As relações entre Kinbote e Shade e entre suas contrapartidas dentro de nós não são de mera oposição. São dialéticas, tão dialéticas quanto as relações entre as nossas primeira, segunda e terceira leituras de "Fogo Pálido". Nabokov não estava interessado em imitar a realidade; queria transformá-la, transformando a si mesmo e a seus leitores em pessoas capazes de sentir e fazer coisas que não saberiam sentir e fazer antes. Também não estava interessado em nos trapacear. Os seus "truques" eram os transbordamentos ebulientes de uma mente bem mais ágil e bem mais armada do que a nossa. Nabokov não tinha interesse ou necessidade de admiração. Queria aprimorar a si e a seus leitores, aumentando a intensidade das trocas dialéticas entre os dois lados da sua e da nossa natureza: o lado que se exalta diante da beleza e das fantasias que a beleza gera e o lado que se dilacera diante do sofrimento dos indefesos. Aqueles que julgam a fantasia irrelevante para o senso moral não poderão aceitar a definição nabokoviana de arte. Talvez cheguem a duvidar de que Nabokov acreditasse em sua própria definição, pois dificilmente conseguirão vê-lo como mais do que um egoísta enamorado de seu próprio brilho estilístico. Pensarão ainda que, a fim de inspirar compaixão, não precisamos nem queremos estilo, engenho e perfeição formal: o estético só pode nos distanciar do moral. Dirão ainda que precisamos ser tão realistas quanto for possível; não queremos fazer pressão contra a realidade, mas sim respeitá-la, na forma que a moralidade prescreve que respeitemos os sentimentos alheios -devemos observar as pessoas tais como elas são, e não imaginá-las. Mas Nabokov recorda-nos de que só podemos respeitar o que somos capazes de notar, e muitas vezes é difícil notar o sofrimento alheio. E ele ainda aponta a razão dessa dificuldade: passamos boa parte do tempo inventando pessoas, em vez de notá-las, metamorfoseando pessoas reais em personagens de histórias que contamos a nós mesmos sobre nós mesmos, sobre nossa beleza e singularidade. Quanto mais dotes poéticos tivermos, melhores fabuladores seremos e menor será nossa capacidade de notar o sofrimento dos outros. No caso extremo de pessoas fabulosamente dotadas e capazes de jamais deixar que o sofrimento alheio se intrometa nas histórias que contam, tais histórias podem se tornar verdadeiramente prodigiosas. Serão histórias à feição da que Kinbote conta sobre Charles Xavier ou da que Humbert conta sobre aqueles raros espíritos capazes de detectar uma ninfeta -"demônio imortal em forma de criança"- à primeira vista; histórias que tornam impossível ao leitor enredado recordar que John Shade tem outros assuntos para seus poemas além de Zembla ou que Lolita é uma criança. Nabokov era o espírito mais singular que se possa imaginar: um poeta de dons fabulosos, cuja capacidade de notar o sofrimento alheio crescia à medida que fazia uso de seus dons. Ele percebeu que a melhor forma de fazer seus leitores notarem o sofrimento alheio consistia em exibi-lo por um momento, depois forçá-los a esquecer tudo por um bom tempo, para enfim trazê-lo novamente à tona justo quando o leitor estava perfeitamente enredado pela pura beleza da fantasia, pela pura alegria da prosa. Nabokov sabia muito bem que a arte pode ser uma distração dos imperativos da moralidade, mas também sabia que ela pode ser, ao menos para alguns de nós, o melhor meio de aprimoramento moral. Pois, mesmo que a beleza possa afastar a compaixão, ela também pode suscitar uma compaixão de intensidade previamente inimaginável: quanto mais bela a história que nos fez esquecer, maior será a compaixão que por fim recordamos. A imagem de um garoto que tenta salvar o irmão das pedras que os demais colegas de escola lhe atiram será sempre uma imagem familiar em muitos países, mas menos freqüente naqueles onde se lêem romances. __________________________________________________ Richard Rorty é filósofo e professor na Universidade Stanford (EUA). É autor de "Para Realizar a América" (DP&A) e "Ensaios sobre Heidegger e Outros" (Relume-Dumará). Uma versão ampliada deste artigo foi publicada como introdução à edição da Everyman's Library (EUA) de "Fogo Pálido" . Tradução de Samuel Titan Jr. __________________________________________________ Fogo Pálido 304 págs., R$ 42,50 de Vladimir Nabokov. Trad. Jorio Dauster e S. Duarte. Companhia das Letras (r. Bandeira Paulista, 702, cj. 32, CEP 04532-002, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/3707-3500). Texto Anterior | Próximo Texto | Índice A NINFETA FEIA ENSAÍSTA DISCUTE SE VLADIMIR NABOKOV TERIA SE APROPRIADO DE CONTO DE UM AUTOR QUASE DESCONHECIDO PARA COMPOR "LOLITA", UM DOS PRINCIPAIS ROMANCES DO SÉCULO 20 por Michael Maar Você já não ouviu isso antes? O narrador na primeira pessoa, um homem culto de meia-idade, relembra a história de um "amour fou" passado. Tudo começa quando, durante viagem ao exterior, ele aluga um quarto em uma casa de família. No instante em que vê a filha da família, se apaixona perdidamente. Ela é uma pré-adolescente cujos encantos o escravizam imediatamente. Ignorando sua idade terna, ele se torna íntimo dela. No final ela morre, e o narrador, marcado para sempre pela garota, permanece só. O nome da menina dá título à história: "Lolita". Conhecemos a menina e sua história, conhecemos o título. Pensamos também conhecer o autor, mas nos enganamos. Seu nome era Heinz von Lichberg. "Lolita", de Von Lichberg, é um conto de 18 páginas publicado em 1916, 40 anos antes de seu homônimo famoso. A história é obra de um autor alemão de 25 anos que praticamente não deixou rastro nos arquivos literários. Mesmo em termos bibliográficos, ela é bem camuflada: "Lolita" está escondida dentro de um volume intitulado "The Accursed Gioconda" [A Gioconda Maldita]. É o nono da coletânea de 15 contos. Ainda em 1975 o livro podia ser comprado em um sebo de Berlim. É provável que, nos anos 1920 e 1930, fosse facilmente encontrável. Hoje, porém, só é possível vê-lo em algumas poucas bibliotecas universitárias. Quem foi o criador da primeira "Lolita"? O autor não é encontrado em nenhuma enciclopédia de literatura. A única obra de referência biográfica que o menciona nem sequer acerta as datas de sua vida. É perdoável, já que Lichberg era um pseudônimo literário. O verdadeiro nome do autor era Heinz von Eschwege. Descendente de uma família antiga de Hesse, Von Eschwege nasceu em 7 de setembro de 1890 em Marburgo, filho de um tenente-coronel da infantaria. Aos 7 anos ele perdeu sua mãe. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi tenente da Artilharia Naval. Nesse período, além de "A Gioconda Maldita" e de uma antologia de poesia alemã, ele publicou contribuições nos periódicos "Jugend" e "Simplicissimus". Depois da guerra -durante a qual tinha sido lançado um volume de seus próprios poemas- ele trabalhou em Berlim, como jornalista para os jornais do Scherl-Verlag, o núcleo do posterior império Hugenberg. Suas cartas traziam o cabeçalho Eschwege-Lichberg, e ele ainda se assinava Eschwege, mas publicava seus escritos sob o nome de Heinz von Lichberg. Ao ler o conto hoje e compará-lo com o romance, somos dominados por uma leve sensação de irrealidade e de déjà vu, como se tivéssemos entrado em uma das histórias labirínticas de Borges. A parte principal do conto, que possui pouco valor artístico, apresenta uma viagem à Espanha. O narrador anônimo, que escreve na primeira pessoa, parte do sul da Alemanha, depois de se despedir de dois irmãos idosos, proprietários de uma taverna que ele frequenta. Ele passa por Paris, chega a Madri e, depois, Alicante. Ali ele se hospeda em uma pensão à beira-mar. Seus planos não vão além de férias tranqüilas. Mas então algo acontece: após um breve adiamento, um vislumbre primeiro e fatal que não pode deixar de nos remeter à "Lolita" posterior [Companhia das Letras]. Nesta, o narrador na primeira pessoa Humbert Humbert faz uma viagem para encontrar um lugar calmo para trabalhar e que tenha um lago por perto. Na cidadezinha de Ramsdale ele visita a proprietária Charlotte Haze, que ele acha tão pouco atraente quanto sua casa. Decidido, em seu íntimo, a partir, ele acompanha a sra. Haze ao que ela descreve como a "piazza" do estabelecimento, e, de repente -"sem nenhum aviso prévio, uma onda azul ergueu bem alto meu coração"-, ele vê a criança imortal, o renascimento de seu primeiro amor de beira-mar: "Era a mesma criança -os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas flexíveis, nuas e sedosas, os mesmos cabelos castanhos". Da mesma maneira, o narrador de Lichberg só precisa de um vislumbre para se emocionar, e, da mesma maneira, a beleza da menina dele também possui o toque sombrio de um mistério do passado. "A pensão administrada por Severo Acosta era uma casa pequena e torta com balcões grandes, apertada entre outras casas semelhantes. O dono da casa, falador e amigável, me levou até um quarto com uma belíssima vista do mar, e não havia nada para me impedir de desfrutar uma semana de beleza sem perturbações. Até o segundo dia, quando vi Lolita, a filha de Severo. Ela era muito jovem para nossos padrões nortistas, com sombras sob seus olhos sulistas e cabelo de uma tonalidade incomum de ruivo dourado. Seu corpo era esbelto e flexível como o de um menino; sua voz, profunda e escura." Como Humbert, nosso narrador se sente imediatamente enfeitiçado e abandona qualquer idéia de partir. Sua Lolita, também, assim como a posterior Dolores Haze, é sujeita a sofrer mudanças violentas de estado de ânimo. Assim começa a descrição que Lichberg faz de uma paixão enigmática que leva o narrador a abandonar qualquer idéia de partir. Lolita é sujeita a caprichos e estados de humor variáveis. Será que ela quer algo dele ou não? Será que esconde segredos em sua alma de criança? Assim como no caso do agradavelmente surpreso Humbert Humbert, ao final é Lolita quem termina por seduzir o narrador, e não o contrário. O autor não o afirma claramente, mas suas elipses e seus rodeios não deixam ao leitor grande margem de dúvida. O texto é ao mesmo tempo tão pouco explícito e tão pouco ambíguo quanto cabe à época. Os dias e noites dedicados por um amante de meia-idade à doce boca de uma linda ninfeta se tornaram sexualmente indecentes apenas mais tarde, com Nabokov, que primeiro pensou em publicar seu manuscrito anonimamente e, mais tarde, escapou da censura por pouco. Apesar disso, a correspondência entre as tramas básicas, a perspectiva da narrativa e a escolha do nome da protagonista não deixa de ser notável. Infelizmente, porém, como observa Van Veen em "Ada", não existe lei lógica que possa nos dizer quando um número dado de coincidências deixa de ser acidental. Em sua ausência, não existe maneira de responder -e, é claro, menos ainda de deixar de lado- a pergunta inevitável: teria Vladimir Nabokov, autor da imortal "Lolita", o orgulhoso cisne negro da ficção moderna, tido conhecimento do patinho feio que foi seu precursor? Poderia ele -mesmo que apenas inconscientemente, já que presume-se que um citar consciente teria sido impensável- ter estado sob seu estímulo? Seja como for, Nabokov poderia facilmente ter cruzado o caminho do autor de "Lolita", o conto. Heinz von Lichberg viveu durante 15 anos na zona sudoeste de Berlim, praticamente no mesmo bairro de Nabokov. Quando criança, Nabokov passou por Berlim várias vezes, quando sua família estava a caminho da França. Um ano depois de a família fugir da Rússia, em 1919, seus pais e irmãos se mudaram para o distrito de Grunewald, em Berlim, onde Vladimir os visitava em suas férias de Cambridge. Em março de 1922 seu pai foi assassinado por um monarquista russo no Teatro da Filarmônica de Berlim. Naquele verão, Vladimir se mudou da Inglaterra para Berlim e -algo que não poderia ter previsto- permaneceu ali até 1937. Naqueles 15 anos em Berlim ele ficou noivo de uma alemã e se separou dela; conheceu Vera Slonim, casou-se com ela e tornou-se pai de um filho e, além disso, tornou-se Sirin, o escritor russo de maior destaque da geração jovem da época. Em Berlim ele escreveu nada menos que nove romances russos, e tinha quase concluído o décimo e melhor deles, "The Gift", quando deu início a sua conquista da literatura americana com "The Real Life of Sebastian Knight". Nada disso nos diz se Sirin-Nabokov pode ter lido a "Lolita" alemã. No que diz respeito a seus conhecimentos de assuntos alemães, Nabokov sempre se manteve reticente, quando não o negava simplesmente. Ele deixava subentendido que, isolando-se dentro da comunidade de exilados russos para evitar perder sua língua-mãe, ele quase não falava o alemão e não lia livros alemães. De fato, Nabokov nunca chegou perto de dominar o alemão como fazia com o francês. Mas não estava mentindo quando, no pedido que fez para obter uma bolsa de estudos Guggenheim, em 1947, afirmou ter "conhecimento razoável do alemão". De qualquer maneira, seria inimaginável que um gênio poliglota como ele pudesse viver em um país por tanto tempo sem alcançar pelo menos um comando passivo de sua língua. E sua antipatia posterior -e eminentemente compreensível- pelos alemães não impediu que seu "conhecimento razoável" da língua deles se estendesse a suas letras. Seu comentário sobre "Eugênio Oniéguin", de Puchkin, por si só revela uma erudição especialista que nem todo germanista seria capaz de demonstrar. Nabokov não apenas tinha familiaridade com os românticos e clássicos alemães como sua obra é pontilhada de alusões à literatura alemã. A célula original Ele valorizava ao extremo Goethe e Hofmannsthal, respeitava Kafka e desprezava Thomas Mann (cujo "A Montanha Mágica" estudou com a ajuda de um dicionário). Ele traduziu para o russo vários poemas de Heine e a "dedicatória" do "Fausto", de Goethe. Existem indicativos de que tenha lido Schopenhauer no original. Materiais menos corriqueiros também entravam em seu campo de visão: o material de base de seu romance "Despair" saiu de jornais alemães, e em um de seus contos ele lançou uma farpa contra "Bruder und Schwester", de Leonhard Frank, às vezes visto como a fonte de "Ada". Alguém que tivesse conhecimento de Leonhard Frank com certeza poderia ter topado com Heinz von Lichberg. Não como romancista, mas como jornalista do "Berliner Tages-Anzeiger", Lichberg estava permanentemente presente durante os 15 anos em que Nabokov viveu em Berlim. No entanto, supondo -digamos, graças a uma dessas coincidências mais freqüentes na vida do que devem ser em qualquer romance- que a coleção de "grotescos" do autor alemão tenha caído nas mãos do escritor russo, teria Nabokov se interessado pelo tema de "Lolita" já naquele momento de sua vida? Sim, com certeza. Vinte anos antes de concluir seu próprio romance sobre o tema, ele já incluíra um esboço dele na boca de um personagem secundário. "Ah, se eu tivesse um ou dois instantes de tempo", suspira o senhorio do protagonista em "The Gift", "que romance eu seria capaz de redigir!". "Imagine algo assim: um sujeito velho -mas ainda no vigor dos anos, fogoso, sedento de felicidade- conhece uma viúva, e ela tem uma filha, ainda uma menininha -você sabe o que quero dizer-, em quem nada é formado ainda, mas que possui um jeito de andar que deixa você louco, fora de si. Uma garota miúda, esbelta, muito loira, pálida, com sombras azuis sob os olhos -e, é claro, ela nem sequer olha para o velho safado. O que fazer? Bem, sem perder muito tempo pensando, ele se casa com a viúva. OK. Eles vão viver juntos, os três. Assim se pode continuar por tempo indefinido -a tentação, o tormento eterno, a ânsia, as esperanças loucas." E assim Nabokov de fato continuou, escrevendo, cinco anos mais tarde, em Paris, a novela "The Enchanter", em que a célula original de "Lolita" já forma um embrião completo. Dez anos depois ele começou a compor o romance, que, apesar das tentações do incinerador, concluiu vitoriosamente em Ithaca, na primavera de 1954. É interessante, porém, que Lolita, embora surja tão precocemente como figura e como tema, como nome surja apenas bem mais tarde. Nabokov disse ao primeiro comentarista de "Lolita", Alfred Appel Jr., que originalmente tencionou chamar sua heroína de Virgínia e intitular o livro "Ginny". No manuscrito, ela teve durante muito tempo o nome Juanita Dark. Foi apenas mais tarde que Nabokov descobriu mil razões pelas quais o nome Lolita, com o qual o livro começa e termina, se tornara essencial. De que profundezas de semiconsciência ou criptomnésia pôde o nome, atraído por alguma isca nova, ter ascendido à superfície? A figura de Lolita, em si, possui tanta semelhança com sua precursora hispano-germânica quanto qualquer menina pode ter com outra. Elas não são gêmeas, de maneira alguma, e a semelhança entre elas é passageira -tão passageira quanto o perfume do pó-de-arroz espanhol que percorre o primeiro amor de Humbert. Em ambos os casos Lolita é um diminutivo de Lola, em um caso de origem espanhola e, no outro, mexicana. Existe também, como Appel observou, um traço alemão na Lola de Nabokov. A "femme fatale" desse nome que aparece no filme "O Anjo Azul" [1930], de Sternberg, era representada por Marlene Dietrich, a quem Humbert certa vez compara a mãe de Lolita. Ao partir, ele chega a chamá-la de Marlene e, em outra ocasião, de Lotte, enquanto o sobrenome dela, Haze, é semelhante ao alemão Hase (coelhinha), como Nabokov confidenciou a um entrevistador da revista "Playboy" -talvez apenas para lisonjear a revista. O fato de Humbert certa vez chamar sua Lolita de "die Kleine" integra o mesmo pano de fundo espantosamente consistente. Nada disso, entretanto, aponta necessariamente para a Lolita primeira, de Lichberg. Entre as semelhanças entre a "Kleine" de 1916 e a de 1954, que certamente existem, uma delas, de qualquer maneira, diz respeito muito mais à "Ur-Lolita" própria de Nabokov. Lichberg dirige seu foco narrativo desde o início para o corpo esbelto de Lolita, "como o de um menino". Do mesmo modo, a primeira descrição que Humbert faz de Lolita, quando ela traz de volta a imagem de sua paixão infantil à beira-mar, canta seus "quadris pueris". Em vários momentos Nabokov, sem que isso dê na vista, a veste em roupas de menino; em uma ocasião Humbert a chama de "mon petit", em outro ele fala, embevecido, de seus "lindos joelhos de menino". Humbert não está citando Heinz von Lichberg, mas um jovem chamado Erwin. Pois a pré-história de Lolita tem origens mais distantes do que "The Gift". A primeira aparição de uma menina ainda não formada, cujo andar é capaz de enlouquecer um homem de idade madura, ocorre no conto "A Nursery Tale" (1926), de Nabokov. Na companhia de um velho poeta -em que, anos depois, Nabokov, para sua própria surpresa, identificaria um antecessor de Humbert-, uma criança-mulher passa por Erwin, que, ele próprio, não deixa de ter alguns pendores humbertianos, embora seja apreciador especial de "garçons manqués". "The Nursery Tale" não é o tipo de fábula que os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen nos convidariam a apreciar. Seqüência de pré-Lolitas Sua trama, tratada com elegância, brinca com uma fantasia masculina clássica. O diabo se oferece para realizar os tímidos sonhos eróticos de Erwin. Ele terá um dia no qual, por meio de seu comando mental, poderá escolher um número ilimitado de garotas para serem suas parceiras de folguedos. A décima segunda e última de suas concubinas é uma criança de cerca de 14 anos que aparece num vestido preto decotado: "Havia algo de bizarro nesse rosto, bizarro era o olhar fugaz de seus olhos muito brilhantes demais, e, se ela não fosse apenas uma menininha -a neta do velho, sem dúvida-, poder-se-ia desconfiar que seus lábios tinham sido retocados com ruge. Ela caminhava rebolando os quadris muito, muito levemente; suas pernas se aproximavam mais, ela perguntava algo a seu companheiro em voz alta -e, embora Erwin não tivesse dado nenhum comando mental, sabia que seu rápido sonho secreto tinha sido realizado". Aqui, sem dúvida, temos a primeira de uma seqüência de pré-Lolitas, uma cadeia que, desse momento em diante, não mais será rompida. Ela ainda não tem nome, mas já é uma ninfeta fatal, como Nabokov a descreveria mais tarde. E, desde o início, com sua primeira aparição em sua obra, a figura revela traços demoníaco-fantasmagóricos, aos quais o jovem autor ainda faz referência, sem se precaver. Erwin é convocado à "rua Hoffman" à meia-noite, por um demônio. Não há como deixar passar despercebida a alusão de Nabokov: os contos fantásticos do romântico alemão E.T.A. Hoffman interligam imperceptivelmente o sonho e a realidade demoníaca. Brian Boyd descreve "The Nursery Tale" como sendo "propositalmente hoffmanesco". Mas desse mastro literário corre um fio de seda que o liga ao "Lolita" alemão. Não ao final, mas já em sua primeira oração, o conto de Lichberg indica o modelo em cuja tradição ele se enxerga: "Alguém atirou o nome de E.T.A. Hoffman na conversa. Novelas musicais". Em companhia agradável, a conversa passa a girar em torno das relações entre arte e realidade, introduzindo uma narrativa interior. É essa a introdução convencional à história de Lichberg -um artifício do qual o próprio Nabokov, quando jovem, nem sempre se abstinha. A senhora da casa diz ao jovem escritor presente: "Você acha possível que essas coisas, sobre as quais eu raramente chego mesmo a ler, possam me manter acordada à noite? Minha razão me diz que são apenas fantasias, e, no entanto..." "É porque não são apenas fantasia, condessa!" O diplomata deu um sorriso bem-humorado. "Mas você não está querendo dizer que Hoffman viveu esses terrores!" "É exatamente isso o que quero dizer", respondeu o escritor, "ele os viveu, sim. Não, é claro, com suas mãos e seus olhos. Mas, como era escritor, ele viveu o que escreveu -ou, melhor dizendo, escreveu apenas aquilo que já vivera espiritualmente...'". É a deixa para a intervenção de outro ouvinte, um professor universitário que, até esse momento, se mantivera em silêncio. Ele quer relatar algo que pesa sobre sua mente há anos e que ele ainda não sabe se foi experiência ou fantasia. Assim começa a narrativa real de uma história altamente hoffmanesca, uma história cujo núcleo encerra justamente o tema que germinou na ficção de Nabokov dos anos 20 em diante. Eis a base da história. Na cidade do sul da Alemanha onde estuda, o narrador entra em uma taverna pertencente a dois irmãos idosos e estranhos, com barbas revoltas, ruivas com tons grisalhos. Ele se senta à mesa deles, recebe vinho espanhol para tomar e vê um lenço de cabeça de seda preta em uma cadeira próxima, do tipo que as garotas espanholas usam em dias de festa. Ocorre a ele que algo fora do comum pode estar acontecendo no lugar, mas ele não pensa mais no assunto. Certa noite, ao passar pela taverna, ele ouve vozes jovens iradas, alteradas, uma briga violenta e um grito de pavor saído da boca de uma mulher. Na manhã seguinte, porém, tudo no estabelecimento dos dois irmãos parece tão normal que ele coloca sua experiência em dúvida e tem vergonha de perguntar a eles sobre o que ouviu. Pouco depois ele parte em viagem à Espanha, na qual conhecerá Lolita, e o leitor descobrirá a solução do mistério. Lichberg batizou seus contos de "grotescos". A descrição não cai bem em sua "Lolita", que recebe tratamento mais condizente com um conto gótico ou mesmo com as histórias de fantasmas de Hoffman. Nabokov não estava acima de escrever romances fantasmagóricos ao estilo de Hoffman. Além da chamada "dimensão espectral" que já foi detectada em sua obra, ele não tinha receios em aderir a esse gênero resistente. Quando tinha a mesma idade em que Lichberg inventou sua criança-mulher espanhola, Nabokov-Sirin escreveu "La Veneziana", uma história que brinca com tropos dessa forma. O título e o tópico desse trabalho -que não deixa de ter atrativos- de sua fase inicial é uma pintura antiga que vem acompanhada de uma história incomum. O quadro representa uma beldade que possui uma semelhança espantosa com uma inglesa viva, mas que, na realidade, é -ou deve ser- uma senhora veneziana de vários séculos atrás. A semelhança é tão espantosa que o protagonista da história, que está apaixonado pela inglesa, passa sessões secretas sentado diante do retrato e, no final -como na história do pintor chinês-, desaparece dentro dela. A "Lolita" de Lichberg não vai tão longe assim. No entanto também com essa relação Nabokov poderia ter encontrado nela seu tema, como se fosse espelhado. O viajante na Espanha topa com um desenho na pensão que parece retratar sua amada. Mas a impressão é enganosa. ""Você pensa que é Lolita", sorriu Severo, "mas é Lola, a avó da bisavó de Lolita, que foi estrangulada por seu amante depois de uma briga, cem anos atrás."' Eis, também, a solução do mistério: o passado. Com ele, chegamos ao cerne da trama de Lichberg. Lolita não é apenas uma menina encantadora qualquer: ela é amaldiçoada e sofre de compulsão repetitiva demoníaca. O narrador fica sabendo desse passado assombrado quando finalmente decide partir, já temendo o amor perigoso de Lolita. "Nos sentamos, e Severo contou a história à sua moda amigável. Ele falou de Lolita, que, em seu tempo, tinha sido uma das mulheres mais lindas da cidade, tão bela que os homens que a amavam tinham que morrer. Pouco após o nascimento de sua filha, ela foi assassinada por dois de seus amantes, a quem ela atormentara até levá-los à loucura. E, desde então, foi como se uma maldição tivesse sido imposta à família. As mulheres sempre tinham apenas uma filha, e sempre morriam, dementes, algumas semanas depois de dar à luz uma criança. Mas todas as meninas eram lindas, tão lindas quanto Lolita! "Minha mulher morreu assim", ele sussurrou em tom grave, "e minha filha também morrerá.' Eu mal conseguia encontrar palavras para confortá-lo, pois o temor por minha pequena Lolita era mais forte do que todos meus outros sentimentos. Quando entrei em meu quarto, à noite, encontrei uma pequena flor vermelha, desconhecida para mim, sobre o travesseiro de minha cama. O presente de despedida de Lolita, pensei comigo mesmo, e a peguei em minha mão. Então vi que, na realidade, era branca, e que só estava vermelha por estar tingida com o sangue de Lolita. __________________________________________________ Maldição, demonismo, compulsão repetitiva: são essas as correntes subjacentes às duas lolitas __________________________________________________ Era assim que ela amava." Nessa noite o narrador é testemunha de uma cena fantasmagórica de assassinato. Ele pensa ver como Lolita -não: sua antepassada, Lola, "ou terá realmente sido Lolita?"- leva dois amantes à fúria e acaba sendo morta por eles. Nos assassinos, ele reconhece os gêmeos Aloys e Anton Walzer. Na manhã seguinte, ele descobre que Lolita morreu durante a noite. "Não posso descrever o que essas palavras me fizeram, e, se eu pudesse, seria como uma profanação falar disso. Minha amada Lolita, minha pequena, estava deitada em sua caminha estreita, com os olhos bem abertos. Seus dentes estavam cerrados convulsivamente sobre seu lábio inferior, e seus cabelos loiros e perfumados estavam revoltos." Com o coração partido, ele deixa a Espanha no navio seguinte. "Mas a alma de Lolita eu levei comigo." Anos mais tarde, ele retorna à cidade do sul da Alemanha, indaga sobre os irmãos Walzer e fica sabendo que, na manhã após a noite em que Lolita morreu, eles foram encontrados mortos em suas cadeiras de reclinar ao lado do fogão, com sorrisos amigáveis nos rostos. Maldição, demonismo, compulsão repetitiva: são essas as correntes subjacentes à outra "Lolita", também. A criança-mulher de Nabokov também é uma "revenant", a reencarnação de uma "gamine sans merci" anterior, fatal. Annabel, sua primeira paixão da praia, incute o desejo pelas ninfetas para sempre em Humbert. Ela lhe lança um feitiço do qual ele só poderá escapar ao deixar que ela reencarne em Lolita. O livro de Nabokov não trata de pedofilia, mas de demonismo. Humbert vive sob uma compulsão erótico-demoníaca. Já em seu "The Nursery Tale" é o demônio quem entrega a primeira Lolita ao herói. Isso não mudou em sua "chef d'oeuvre". De acordo com a queixa contundente de Humbert, é o próprio demônio quem o incentiva e o faz de tolo e quem, mais tarde, terá que lhe dar um descanso se quiser conservá-lo como seu brinquedo por mais tempo. Mas não é apenas Humbert o objeto das maquinações demoníacas. Por sua definição inconfundível, a ninfeta não é humana, mas demoníaca. Lolita é "o demônio imortal disfarçado em criança menina". Será preciso dizer que a Lolita de Lichberg também está presente aqui, nos bastidores? A menina de Lichberg também é metade demônio, metade vítima de uma maldição e, como seu amante, sujeita a uma compulsão vinda do passado. Em Lichberg, há até mesmo um prazo temporal preciso para o feitiço entrar em ação. Quando o narrador deixa Lolita, ela o morde na mão com toda a força de sua boquinha. "Essas cicatrizes do amor", confessa a vítima a seus ouvintes, "se conservaram indeléveis, mesmo 25 anos mais tarde." Encontramos o mesmo intervalo de tempo quando Humbert vê Lolita pela primeira vez -seu primeiro amor reencarnado, aquela de cujo encantamento ele jamais escapou: "Os 25 anos que vivi desde então reduziram-se a um ponto latejante e se desvaneceram." Perda de identidade Em seu caso, também, um quarto de século não foi capaz de extinguir a magia do primeiro amor-maldição. E o padrão -é o padrão de todas as histórias de amor e de morte- persiste. O que se repete compulsivamente ao longo dos anos sempre termina por explodir em violência. A história de Lichberg nos conduz à cena, que lembra um sonho, de um assassinato dramático e grotesco. A cruel Lola chama seus amantes a competirem por ela. Ela amará aquele que se revelar mais forte -eles crescem até seus ossos racharem; amará o mais velho -o cabelo cai de suas cabeças; amará aquele que tem a barba mais comprida e feia -longos pêlos ruivos se projetam dos rostos distorcidos dos irmãos Walzer, que então, aos gritos de fúria e desespero bestial, se atiram sobre Lola e a estrangulam. "Fale pela última vez -ou irás ao inferno com sua beleza três vezes amaldiçoada." O final do livro de Nabokov também é uma morte fantasmagórica, que lembra algo saído de um sonho. Humbert e Clare Quilty, os dois amantes de Lolita, se misturam nessa cena, tornando-se os gêmeos que foram desde o início em Lichberg. O sedutor de Lolita, Quilty, é a sombra escura de Humbert, seu segundo eu. Em sua briga, eles chegam a perder suas identidades gramaticais: "Rolei sobre ele. Rolamos sobre mim. Rolaram sobre ele. Rolamos sobre nós". Quando Humbert finalmente consegue matar seu alter ego -o que é difícil, já que as balas no corpo de Quilty, em lugar de destruí-lo, parecem lhe infundir nova energia-, ele sela sua própria sorte. Algumas semanas mais tarde, também Humbert, o sátiro trágico, é um homem morto. A arte tem a última palavra No conto de Lichberg, não é o rival quem é morto, mas a mulher. Mas Nabokov também brinca com essa variante. Não apenas o "leitmotiv" de citações de "Carmen" atrai seu leitor até o fim por essa trilha falsa, sugerindo que o amante traído pode acabar por disparar contra sua amada infiel. Mesmo em seu adeus a Lolita, Humbert flerta com a idéia de sacar seu revólver e fazer algo estúpido. Como sabemos, a grávida senhora Schiller, em quem Lolita se transformou, é poupada desse fim. Indiretamente, porém, a maldição ainda parece se irradiar da obra de Lichberg. Lola é assassinada logo após a morte de sua filha. Lolita morre nas semanas seguintes ao parto de sua filha natimorta. A última palavra, é claro, não é da morte, mas da arte. Lolita e sua história, repleta de sangue, tutano e lindas moscas verdes reluzentes, fazem de Humbert um escritor. O romance termina com sua esperança da única imortalidade que ele e sua musa poderão dividir: o refúgio da arte. O amante do conto de Lichberg segue o mesmo caminho. Também ele é iniciado na arte por Lolita. Quando conclui sua história, a condessa -que o ouviu de olhos fechados- murmura: "Você é um poeta". Existem apenas três possibilidades, pelo menos até que alguém nos mostre uma quarta. A primeira é que estamos na presença de uma dessas coincidências fortuitas que ocorrem repetidas vezes na história da arte e da ciência. Essa possibilidade não pode ser excluída. Mas, pelas barbas do profeta, isso seria um verdadeiro milagre. A segunda possibilidade é que Nabokov tinha conhecimento do conto de Lichberg e, metade inserindo e metade apagando seus rastros, se prestou àquela arte da citação à qual Thomas Mann, ele próprio mestre nela, dava o nome de "plágio de alto nível". Plágio? Um absurdo. Afinal, a literatura sempre envolveu a repetição de motivos já familiares: em que ela consiste, senão em literatura? Entretanto, deixando isso de lado, essa segunda possibilidade é tão improvável quanto a primeira. Ela não combina com Nabokov. Alusões a Poe, Proust ou Puchkin, a Shakespeare, Chateaubriand ou Joyce, que pululam em sua obra, possuem uma valência que alusões a um escritor menor e desconhecido jamais poderiam ter. Nabokov não tinha necessidade de plagiar e tampouco teria enobrecido um Von Lichberg, citando o nome de sua heroína. Isso deixa a terceira possibilidade como o palpite mais plausível. De alguma maneira misteriosa, ""A Gioconda Maldita", de Lichberg, caiu nas mãos de Nabokov. Folheando o livro, ele poderia ter topado com a história da ninfeta, e assim o tema teria começado a passear por sua mente. Ele esqueceu a história ou pensou tê-la esquecido. Também desse fenômeno, a criptomnésia, a história da arte oferece exemplos suficientes. Décadas mais tarde, atraídos à superfície por novas iscas, nomes e partes dos detalhes começaram a sair das profundezas de sua memória. O momento de maior acerto ao escrever, explicou Nabokov em entrevista que concedeu à televisão em 1966, lhe ocorria quando ele se percebia indagando: "Como isso veio até mim? Como é que existia em minha cabeça antes mesmo de eu pensar nisso?". Tal é a graça da inspiração. Como a bênção bíblica de duas faces, ela pode vir do alto, mas também pode ascender dos calabouços da memória. O patinho feio e o cisne soberbo -se essa imagem remete em demasia aos contos de fada, ela também pode ser expressa mais tecnicamente. Heinz von Lichberg, que não deixava de possuir talento, mas era abertamente imaturo, se ocupou em fabricar sua "Lolita" com pano, madeira, papel e barbante. Vladimir Nabokov usou materiais semelhantes -mas, com eles, criou um papagaio que desapareceu no céu azul da literatura. __________________________________________________ Michael Maar é pesquisador e ensaísta alemão. A versão integral do artigo acima foi publicada no "Times Literary Supplement". Tradução de Clara Allain. ----- Original Message ----- From: D. Barton Johnson To: [log in to unmask] Sent: Monday, August 02, 2004 3:33 PM Subject: Fw: O amor, em Vladimir Nabokov, tem essa consequ?ncia extraordinariamente ... ----- Original Message ----- From: Jansy Berndt de Souza Mello To: D. Barton Johnson Sent: Monday, August 02, 2004 8:43 AM Subject: Re: O amor, em Vladimir Nabokov, tem essa consequência extraordinariamente ... PS: I forgot to tell you that "suspension dots" in Portuguese are called "reticências" ( "reticences" wouldn´t seem to be VN´s tactics ...nor the dotting lines on the wings of the butterfly, nor VN´s play with "Dolores" on a dotted line). J. ---------- End Forwarded Message ---------- D. Barton Johnson NABOKV-L


Message-ID: <006a01c478c3$6c8248d0$6b07a8c0@desktopjansy>
From: "Jansy Berndt de Souza Mello" <[log in to unmask]>
To: "Vladimir Nabokov Forum" <[log in to unmask]>
References:  <001d01c478bf$45794a80$6401a8c0@Don>
Subject: Re: O amor, em Vladimir Nabokov,
         tem essa consequência..
Date: Mon, 2 Aug 2004 16:03:37 -0300
Content-Type: multipart/related;
        type="multipart/alternative";

[multipart/alternative]


Dear Don, it seems that you sent more than you intended to in your Nabokov-L posting. Anyway, here is the Nabokov sighting that I had sent you a few weeks ago. It was published in the "Folha de São Paulo" special edition. The first text offers a translation of Rorty´s comment on Pale Fire, since a new revised translation of this novel was announced at that time. The second text is Michael Maar´s. REVIVENDO OS VIVOS Patrimônio Vladimir Nabokov/Reprodução O escritor Vladimir Nabokov FILÓSOFO NORTE-AMERICANO DISCUTE "FOGO PÃLIDO", DE VLADIMIR NABOKOV, REEDITADO AGORA NO BRASIL por Richard Rorty A imaginação, dizia Wallace Stevens, é a mente reagindo à pressão da realidade. Mas é do interesse da realidade -ou seja, da imaginação dos mortos- que nenhuma nova reação seja necessária: que a imaginação dos vivos não possa fazer nada senão reiterar lições previamente aprendidas e exemplificar verdades já sabidas. Resenhadores de bom senso devem pressupor que não se pode escrever nada de genuinamente novo, pois só assim estarão em condição de julgar o livro que estão resenhando sem o perigo de se verem julgados por este. À maneira do resenhador de bom senso, o leitor comum sente-se nervoso diante de livros que não são suficientemente semelhantes aos livros que ele leu no passado. Vladimir Nabokov (1899-1977) escreveu livros nada parecidos aos demais e que raramente tiveram boas resenhas. A maior parte dos críticos fez eco ao dito de Samuel Johnson -nada de estranho pode durar- e cuidaram de diagnosticar as esquisitices de Nabokov como índices de seu desdém egoísta pela realidade, desdém que encobria sua incapacidade de imitar a realidade persuasivamente. Simon Raven, resenhando "Fogo Pálido" em 1962, ano de sua publicação, afirmou que não se tratava de "um romance, mas de um protótipo". A resenha de Saul Maloff explicava que, "desde sempre, a razão de ser do romancista" é "a criação de um mundo", ao passo que Nabokov criara apenas "uma constelação de bibelôs elegantes e maravilhosos -por definição, uma arte menor". Resenha atrás de resenha reconhecia o engenho de Nabokov e lamentava sua auto-suficiência, seu deleite com os próprios truques, truques que punham a nu a sua falta de respeito pela realidade e pelo leitor comum. Dwight Macdonald declarou o livro "ilegível", sublinhou que, mesmo em seus melhores momentos, Nabokov era "menor" e insistia que "os esmeros técnicos que Nabokov dedica ao projeto são tão ostensivos que acabam por destruir todo o prazer estético do leitor". Incomodado pelo fato de Mary McCarthy ter considerado ""Fogo Pálido" uma criação de perfeita beleza, simetria, estranheza, originalidade e verdade moral", Macdonald explicava que tanto o romance como a resenha de McCarthy eram "exercícios de engenho despropositado". Nabokov não tinha nenhum interesse na criação de um mundo como aquele a que Raven, Maloff e Macdonald estavam acostumados. Certa vez, declarou que "dizemos que uma coisa é semelhante a tal outra coisa, quando o que realmente adoraríamos seria descrever algo que não tem par na terra". Era esse o anseio que tanto incomodava tantos resenhadores. Para aqueles que gostariam que a realidade fosse tratada com o devido respeito, esse anseio é um índice de auto-suficiência egoísta. "Egoísmo" é o nome que a realidade dá a tudo o que chama atenção para si mesmo -tudo o que é estranho, duro de entender, difícil de acompanhar. Quem respeita a realidade, quem tem certeza de que não há por que submetê-la a novas pressões, dirá que tudo o que é digno de nota já faz parte da realidade e precisa apenas ser representado com precisão. O que não faz parte da realidade é subjetivo, pessoal, idiossincrático, tolo, pueril, evanescente, indigno de nota. Pois, para olhos respeitadores, a realidade é a única autoridade legítima. O anseio do poeta em exercer pressão sobre a realidade parece não apenas fútil, mas ainda moralmente equívoco. Agora, os críticos e historiadores da literatura começaram a reconhecer que o livro, afinal de contas, há de durar. Aos poucos, o romance vai adquirindo a aura de um clássico, obra de uma das imaginações mais poderosas que o século 20 criou. Essa espécie de reconhecimento é um dos expedientes de que a realidade lança mão para não ter que admitir o golpe que levou. Como se, na calada da noite, sem ninguém por perto, a realidade emitisse pseudópodos para incorporar o último corpo estranho. De manhã, a realidade estará tão fresca e rija quanto antes (mesmo que um pouquinho crescida). E algo que de fato não tinha par na terra se converte em mais um fato terrestre e objetivo, à espera de ser observado. Às vezes, porém, quando o corpo estranho é grande demais ou complexo demais, o processo de assimilação não estará concluído quando a manhã chegar. Nesses casos, podemos surpreender a realidade sugando a vida de uma metáfora ou convertendo um paradoxo numa platitude ou dando feições de clássico a um escândalo. "Lolita" não se parecia a nada que Morris Bishop, bom leitor, bom homem e melhor amigo de Nabokov em Cornell, tivesse lido; seu asco diante da sordidez de Humbert impediu-o de ler o manuscrito até o fim. Trinta anos mais tarde, a neta de Bishop teve de ler "Lolita" na escola secundária. À medida que "Lolita" e "Fogo Pálido" se convertam em leitura curricular e tema de prova, Humbert Humbert e Charles Kinbote virão a ser personagens literários conhecidos, componentes familiares da realidade em que crescemos. Quanto mais isso aconteça, mais provável será que ambos se fundem à figura de seu criador, mais provável será que os leitores de Nabokov pensem que estão lendo sobre Nabokov, quando na verdade estão lendo sobre esses dois monstros encantadores. Quanto mais se faça essa identificação inconsciente, menos se recordarão as pessoas de que Humbert e Kinbote manipulam as famílias Haze e Shade e, em especial, seus membros mais jovens, Lolita Haze e Hazel Shade. Brian Boyd, cuja esplêndida biografia serve bem à causa de Nabokov, ao tornar menos fácil a incorporação de seus livros, conta que, entre todos os personagens de seus romances que Nabokov admirava como seres humanos, Lolita só perdia para Pnin. Mas os leitores de Lolita muitas vezes têm dificuldade para conseguir focalizá-la. Parecem não lembrar de nada além da criatura de Humbert, sua invenção: a ninfeta, mais que a garotinha. De modo que é difícil aceitar a idéia de que ela fosse um esplêndido ser humano. Mesmo assim, como os leitores de "Lolita" recordarão vagamente, a garota era valente: de algum modo, ela conseguiu se livrar de Quilty e encontrou um bom homem, capaz de lhe dar um filho. Constituiu um lar para ele e para a criança que devia nascer perto do Natal em Gray Star, "um povoado no noroeste mais remoto", onde faz muito frio. Pensando bem, Nabokov diz em alguma passagem que Gray Star é "a capital do livro". É então que nos damos conta novamente: Humbert era o único a pensar que havia inventado Lolita; nós não tínhamos por que achar o mesmo. Nós deveríamos lembrar que Humbert era dado a esquecer: os soluços de Lolita durante a noite, seu irmão morto, a criança que teria substituído o irmão. Como esquecemos? Esquecemos porque Nabokov cuidou que esquecêssemos temporariamente. Ele programou tudo para que esquecêssemos primeiro e lembrássemos depois, confusos e culpados. Seu livro segue nos manipulando mesmo depois de fechado. A razão pela qual será relativamente difícil transformar "Lolita" em um clássico é que nós, guardiões da legitimidade, servos da realidade, só podemos fazer comentários abalizados sobre um romance e encontrar nele ilustrações admiráveis de verdades gerais se o tivermos sob controle. Temos que ganhar distância dele, a fim de observá-lo fixamente, por inteiro. Mas Nabokov cuida que, justo quando pensávamos ter recuado alguns passos e encontrado o lugar correto para observar o livro em perspectiva, tenhamos a sensação fantasmagórica de que é o livro que está olhando para nós de uma distância considerável e às risadelas. O embaraço resultante costuma se manifestar na forma de exasperação renovada diante do egoísmo de Nabokov, de seu gosto infantil pelos truques e pela novidade tola. O que vale para "Lolita" vale para "Fogo Pálido". Quando se lê o livro pela primeira vez, nós nos absorvemos numa boa história, narrada por um senhor meio esquisito, mas encantador, e isso antes mesmo de chegar ao fim da introdução. O que vem em seguida -os 999 versos rimados de "Fogo Pálido"- soa como uma interrupção ligeiramente infeliz. Talvez não seja justo forçar um amante de boas histórias a atravessar laboriosamente um poema longo antes de retornar à trama. Mas vamos lá, dizemos ponderadamente, o poema não é tão longo assim. Depois de nos perturbarmos um pouco com a história do suicídio de Hazel Shade no segundo canto e de nos entediarmos um pouquinho com as reflexões sobre a morte no terceiro canto e sobre o processo criativo no quarto canto, tornamos à história que o poema interrompeu. Voltamos à companhia de Kinbote, intrigante, mas dúbia também, e começamos a nos divertir com seu jeito de se intrometer alegremente no que, em teoria, é um comentário ao poema que já começamos a esquecer. Cinqüenta páginas depois, esquecemos tudo a respeito de John Francis Shade (1898-1959, a introdução já dizia, vale lembrar, que ele morrera logo depois de escrever "Fogo Pálido", pobre homem!). Pois agora estamos imersos nas aventuras de uma figura bem mais interessante: Charles Xavier Vseslav, último rei de Zembla (reinante entre 1936-1958). Se o único grande acontecimento na vida de Shade parece ter sido o infeliz suicídio de sua jovem filha, a história da juventude de Xavier é repleta de incidentes. Mais ainda, ela possui aquele profundo interesse humano que sempre se prende às histórias da realeza, para não falar daquele fremitozinho extra que sentimos ao ler sobre a cópula de jovens faunos. Cem páginas mais tarde, estamos convencidos de que Charles Kinbote e Charles Xavier são a mesma pessoa. Isso nos proporciona não somente a satisfação de saber que nosso interesse por Kinbote foi recompensado, mas ainda a sensação basbaque de que a realeza achou por bem nos tratar como confidentes. Um ex-rei, triste, mas bonito e bem lido, confia em nós a ponto de nos contar coisas que pouquíssimas pessoas poderiam adivinhar. Shade aparece de vez em quando, e suspeitamos de que ele também pode ter sido clarividente o bastante para perceber, como nós, quem Kinbote de fato é. Mas as aparições de Shade são sempre sucedidas e obliteradas pela revelação de algum fato novo e surpreendente sobre nosso notável anfitrião e comentador. É tão-somente nas páginas finais do romance que somos novamente forçados a pensar seriamente em Shade. Pois agora algo de fato acontece: ele é morto. Shade retorna à história de Kinbote no mesmo momento em que Gradus, o regicida enviado pelo governo revolucionário de Zembla, está a ponto de cumprir sua missão. Tão logo Shade morre, o romance começa a cair em pedaços. Nossa atenção é subitamente puxada de volta ao poema que esquecemos por tanto tempo. Pois Gradus surge no momento em que Shade finalmente entrega a Kinbote o manuscrito de "Fogo Pálido". Enquanto Shade, caído no chão, se esvai em sangue, Kinbote corre para dentro da casa, a fim de buscar um copo d'água para o amigo moribundo e esconder o manuscrito sob uma pilha de galochas de ninfetas dentro de um armário. Após alguma demora desagradável (Kinbote tem que gastar algum tempo com a viúva de Shade, a polícia e coisas do gênero), ele pode enfim recuperar o manuscrito. Ele o lê rosnando, "como um jovem e furioso herdeiro que percorre o testamento deixado por um velho impostor", dando-se conta de que o poema não trata dele mesmo, mas de seu autor. Nós, leitores, a essa altura completamente emaranhados às esperanças e aos temores de Kinbote, nos surpreendemos a compartilhar a decepção avassaladora de Kinbote, muito embora nós mesmos já tenhamos lido o poema e saibamos muito bem que tratava dos Shades, e não da derrocada da monarquia em Zembla. Nós também nos perguntamos como Shade pôde ser tão insensível e cruel a ponto de não fazer nenhum uso do material maravilhoso que seu amigo Kinbote lhe oferecia constantemente. Entretanto as dúvidas que nós, monarquistas leais, temos deixado impacientemente de lado ao longo de 200 páginas começam a refluir. Talvez (aliás, muito provavelmente) não sejamos os confidentes de um rei, mas as vítimas de um lunático. Zembla, recordamos, não figura em nenhum mapa que se conheça. Os castelos ao pôr-do-sol começam a ruir diante de nossos olhos. Toda a história mirabolante talvez não tenha sido mais que a invenção de um acadêmico exilado e enlouquecido, um monstro de egoísmo que nos arrebatou com suas fantasias absurdas. A única pessoa sadia, mais ainda, a única pessoa decente à vista (seja no romance, seja na sala onde o lemos) vem a ser o sujeito que esquecemos há tempos, o homem que escreveu o poema cujo acontecimento central nós preferimos não lembrar: o doce e trapalhão John Shade, com seus valores familiares fora de moda. Enquanto vemos ruir os castelos, lembramos que torres envoltas em nuvens são sujeitas a dissolução. E, enquanto procuramos desesperadamente por Nabokov, para lhe pedir que nos leve a seu próprio ponto de vista, que nos mostre de onde observar o romance com clareza, nós nos damos conta de que estamos precisamente onde ele queria que estivéssemos: ouvindo Kinbote dizer: "Muito bem, minha gente, acho que muitos dos presentes neste belo salão têm tanta fome e tanta sede quanto eu, e acho melhor, meus amigos, parar por aqui". É como se Próspero, após explicar que em breve mandará seu livro para o fundo do mar, viesse até a beira do palco para anunciar que haverá frutas e bebidas à venda no pátio logo depois do espetáculo, que os assinantes serão bem-vindos nos camarins, mas que, infelizmente, o autor da peça, que adoraria estar ali para encontrar seus muitos amigos, está fora da cidade. Assim como é preciso muito esforço para lembrar que Lolita soluçava no meio da noite, é também preciso muito esforço para lembrar de Hazel Shade, a moça acima do peso cujo corpo foi retirado do lago Omega no segundo canto. Mas o lago é o traço topográfico central de "Fogo Pálido". A busca de um ponto de vista acabará por conduzir o leitor às margens pantanosas do lago e ao centro exato do poema: "Da margem destacou-se um indistinto/ Vulto que o pântano, voraz, sorveu". -------------------------------------------------------------------- Os "truques" de Nabokov eram os transbordamentos ebulientes de uma mente bem mais ágil do que a nossa; ele queria aprimorar a si e a seus leitores -------------------------------------------------------------------- Aos poucos percebemos que a morte mais importante em "Fogo Pálido" é a mesma que importa no poema "Fogo Pálido": não a de Shade, mas a de sua filha. Shade tinha 61 anos quando foi morto por acidente (por um regicida incompetente, se dermos crédito a Kinbote, ou, mais provavelmente, por um lunático à solta, Jack Grey, que confundiu Shade com o juiz que o recolheu a um asilo). Mas sua filha Hazel tinha apenas 23 anos quando sua infelicidade tornou-se insuportável, graças à crueldade de um estudante universitário, Pete Dean, desapontado com a sensaboria de um encontro às cegas. Ficamos sabendo muita coisa sobre o autocastrado Gradus, mas pouquíssimo sobre Pete. É provável que não fosse nenhum monstro, quem sabe até um rapaz decente, um tanto egoísta e afoito -alguém muito parecido conosco. Nós mesmos talvez tenhamos sido um pouco egoístas e afoitos ao esquecer a família Shade tão rapidamente, mas não foi correto da parte de Nabokov embrulhar-nos tanto tempo com aqueles moços floridos, aqueles paladinos da Rosa Negra, toda aquela conversa fabulosa sobre Zembla. Crueldades Seja como for, os Shade não são muito mais reais que Zembla. Afinal de contas, Hazel é um personagem de ficção. Por que a crueldade de Pete Dean deveria ser mais dolorida do que a crueldade de Charles, o Bem-Amado, para com a pálida rainha Disa? Pois, assim como Disa e, de resto, o próprio Charles Xavier, não eram mais que criações ficcionais do ensandecido professor Kinbote, do mesmo modo Hazel não é mais que a criação de um professor exilado de literatura russa e inglesa, sujeito esquisito, dado a truques e fantasias, de nome Nabokov, um professor cuja semelhança com Kinbote é patente no final do livro. Saímos ofuscados dali, fugindo ao som do pano de fundo sendo rasgado às nossas costas, tentando nos livrar da coisa toda como de um amontoado de truques impingidos a nós por um egomaníaco exilado. Foi o que a maioria dos resenhadores de "Fogo Pálido" tentou fazer. Mas tal estratégia não funciona. Pois agora o mundo real recebeu um pequeno golpe, bem ali onde nos esquecemos de Hazel. Mas esse esquecimento não foi uma fantasia. Foi tão real quanto nós. O golpe foi desferido pela imaginação de Nabokov, mas só foi possível com nossa participação entusiástica. Quando lemos pela primeira vez "Lolita" ou "Fogo Pálido" ou "Pnin", podemos rir do começo ao fim de cada uma dessas histórias prodigiosas. Mas saímos das páginas finais de cada um desses romances coçando a cabeça, perguntando-nos se estamos bem, se gostamos de nós mesmos. Nesses três romances, Nabokov dispõe as coisas de tal modo que façamos uma aliança com um determinado personagem (Humbert, Kinbote ou qualquer um dos colegas desdenhosos de Pnin) contra alguém que esse mesmo personagem trata cruelmente. Ele também cuida que pensemos estar ombro a ombro com o próprio Nabokov, com esse escritor tão brilhante, que nos está proporcionando tão bons momentos, cujo engenho nos é fonte de tanto deleite estético. Mas, em todos esses casos, percebemos no final do livro que seria melhor não nutrir sentimentos tão calorosos por esse personagem com quem estivemos perambulando e cuja companhia parecia tão agradável. E isso nos faz pensar se nossa relação com Nabokov é tão transparente quanto pensávamos. Começamos a ter a terrível sensação de que talvez Nabokov não goste tanto assim de nós assim como não gostava dos personagens a quem nos apresentou. Mas valeria ter-nos identificado a outra gente -Shade, Lolita, Pnin- antes que fosse tarde demais. Palhaço anônimo Nosso arrependimento só faz crescer quando ouvimos Nabokov dizer a um entrevistador: "Faz pouco tempo, um palhaço anônimo, escrevendo sobre "Fogo Pálido" numa revista de Nova York, tomou por minhas as declarações do comentador que inventei no livro...". Talvez não nos tenhamos saído melhor que esse palhaço anônimo? Será isso o que Nabokov queria que sentíssemos? Sendo assim, ele é de fato tão insidiosamente cruel, tão egoísta e indiferente quanto seus personagens mais sedutores, não? Não. Nabokov é um autor tão gentil e generoso quanto foi na vida real. Muito embora não tenha a menor vontade de se reunir a nós para comes e bebes depois de tirar sua maquiagem de Próspero, ele tampouco está interessado em nos passar uma rasteira. Ele sabe muito bem que, daqui a alguns dias, estaremos mais felizes e seremos mais sábios por termos sofrido um pequeno golpe. Massageando esse golpe com mais tranqüilidade, perceberemos que, como ele e como todos mais, nós também temos nosso lado Shade e nosso lado Kinbote. O lado que sente compaixão por Hazel e Lolita e o lado que as esquece, o lado que sente pena das dificuldades de Pnin com a língua inglesa e o lado que as acha divertidas às pampas. Quem tiver esses dois lados em si mesmo pode muito bem se tornar mais gentil e generoso ao reconhecer sua própria duplicidade. Quanto mais vezes lemos "Fogo Pálido" e quanto mais vezes o lemos no contexto dos demais livros de Nabokov, mais claramente percebemos que cada um desses lados só emerge à luz do outro: Shade não seria plenamente visível sem Kinbote, nem Kinbote sem Shade. No final da entrevista citada acima, o jornalista comenta que "às vezes me parece que nos seus romances, em "Riso no Escuro", por exemplo , há um traço de perversidade que chega às raias da crueldade". Ele respondeu: "Não sei. Talvez. É claro que alguns de meus personagens são bem bestiais, mas não me importo muito, estão fora de meu íntimo, feito monstros arrependidos na fachada de uma catedral -demônios colocados ali apenas para mostrar que tomaram uma sova. Na verdade, eu sou um senhor afável que abomina a crueldade". Beleza e compaixão Nabokov tornou-se mais afável à medida que envelhecia, escrevia mais romances e dava sovas em mais e mais demônios. Escreveu "Fogo Pálido" quando tinha a idade de Shade, 61, e conferiu a Shade uma espécie de generosidade que não soubera dar, 25 anos antes, a Fiódor Godunov-Tcherdintsev (em "O Dom"). Quando Kinbote pede uma senha a Shade, este lhe diz "compaixão". Nesse caso, podemos ter certeza de que Shade fala por seu criador, que, nas suas "Conferências de Literatura", escrevera: "Beleza e compaixão é o mais perto que chegaremos de uma definição da arte". É tentador afirmar que Kinbote dava-se bem com a beleza, e Shade, com a compaixão, e ainda que vincular a obra dos dois homens produziu o que McCarthy declarou ser "uma das grandes obras de arte do século 20". Mas isso seria simplista demais. Shade saía-se muito bem com a beleza: há versos maravilhosos espalhados em "Fogo Pálido". Kinbote comiserava-se ferozmente por Disa, ainda que apenas em seus sonhos, e estava certo ao dizer que "Hazel Shade parecia-se comigo sob certos aspectos" (e não apenas pela tendência suicida). As relações entre Kinbote e Shade e entre suas contrapartidas dentro de nós não são de mera oposição. São dialéticas, tão dialéticas quanto as relações entre as nossas primeira, segunda e terceira leituras de "Fogo Pálido". Nabokov não estava interessado em imitar a realidade; queria transformá-la, transformando a si mesmo e a seus leitores em pessoas capazes de sentir e fazer coisas que não saberiam sentir e fazer antes. Também não estava interessado em nos trapacear. Os seus "truques" eram os transbordamentos ebulientes de uma mente bem mais ágil e bem mais armada do que a nossa. Nabokov não tinha interesse ou necessidade de admiração. Queria aprimorar a si e a seus leitores, aumentando a intensidade das trocas dialéticas entre os dois lados da sua e da nossa natureza: o lado que se exalta diante da beleza e das fantasias que a beleza gera e o lado que se dilacera diante do sofrimento dos indefesos. Aqueles que julgam a fantasia irrelevante para o senso moral não poderão aceitar a definição nabokoviana de arte. Talvez cheguem a duvidar de que Nabokov acreditasse em sua própria definição, pois dificilmente conseguirão vê-lo como mais do que um egoísta enamorado de seu próprio brilho estilístico. Pensarão ainda que, a fim de inspirar compaixão, não precisamos nem queremos estilo, engenho e perfeição formal: o estético só pode nos distanciar do moral. Dirão ainda que precisamos ser tão realistas quanto for possível; não queremos fazer pressão contra a realidade, mas sim respeitá-la, na forma que a moralidade prescreve que respeitemos os sentimentos alheios -devemos observar as pessoas tais como elas são, e não imaginá-las. Mas Nabokov recorda-nos de que só podemos respeitar o que somos capazes de notar, e muitas vezes é difícil notar o sofrimento alheio. E ele ainda aponta a razão dessa dificuldade: passamos boa parte do tempo inventando pessoas, em vez de notá-las, metamorfoseando pessoas reais em personagens de histórias que contamos a nós mesmos sobre nós mesmos, sobre nossa beleza e singularidade. Quanto mais dotes poéticos tivermos, melhores fabuladores seremos e menor será nossa capacidade de notar o sofrimento dos outros. No caso extremo de pessoas fabulosamente dotadas e capazes de jamais deixar que o sofrimento alheio se intrometa nas histórias que contam, tais histórias podem se tornar verdadeiramente prodigiosas. Serão histórias à feição da que Kinbote conta sobre Charles Xavier ou da que Humbert conta sobre aqueles raros espíritos capazes de detectar uma ninfeta -"demônio imortal em forma de criança"- à primeira vista; histórias que tornam impossível ao leitor enredado recordar que John Shade tem outros assuntos para seus poemas além de Zembla ou que Lolita é uma criança. Nabokov era o espírito mais singular que se possa imaginar: um poeta de dons fabulosos, cuja capacidade de notar o sofrimento alheio crescia à medida que fazia uso de seus dons. Ele percebeu que a melhor forma de fazer seus leitores notarem o sofrimento alheio consistia em exibi-lo por um momento, depois forçá-los a esquecer tudo por um bom tempo, para enfim trazê-lo novamente à tona justo quando o leitor estava perfeitamente enredado pela pura beleza da fantasia, pela pura alegria da prosa. Nabokov sabia muito bem que a arte pode ser uma distração dos imperativos da moralidade, mas também sabia que ela pode ser, ao menos para alguns de nós, o melhor meio de aprimoramento moral. Pois, mesmo que a beleza possa afastar a compaixão, ela também pode suscitar uma compaixão de intensidade previamente inimaginável: quanto mais bela a história que nos fez esquecer, maior será a compaixão que por fim recordamos. A imagem de um garoto que tenta salvar o irmão das pedras que os demais colegas de escola lhe atiram será sempre uma imagem familiar em muitos países, mas menos freqüente naqueles onde se lêem romances. -------------------------------------------------------------------------- Richard Rorty é filósofo e professor na Universidade Stanford (EUA). É autor de "Para Realizar a América" (DP&A) e "Ensaios sobre Heidegger e Outros" (Relume-Dumará). Uma versão ampliada deste artigo foi publicada como introdução à edição da Everyman's Library (EUA) de "Fogo Pálido" . Tradução de Samuel Titan Jr. -------------------------------------------------------------------------- Fogo Pálido 304 págs., R$ 42,50 de Vladimir Nabokov. Trad. Jorio Dauster e S. Duarte. Companhia das Letras (r. Bandeira Paulista, 702, cj. 32, CEP 04532-002, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/3707-3500). Texto Anterior | Próximo Texto | Ãndice A NINFETA FEIA ENSAÃSTA DISCUTE SE VLADIMIR NABOKOV TERIA SE APROPRIADO DE CONTO DE UM AUTOR QUASE DESCONHECIDO PARA COMPOR "LOLITA", UM DOS PRINCIPAIS ROMANCES DO SÉCULO 20 por Michael Maar Você já não ouviu isso antes? O narrador na primeira pessoa, um homem culto de meia-idade, relembra a história de um "amour fou" passado. Tudo começa quando, durante viagem ao exterior, ele aluga um quarto em uma casa de família. No instante em que vê a filha da família, se apaixona perdidamente. Ela é uma pré-adolescente cujos encantos o escravizam imediatamente. Ignorando sua idade terna, ele se torna íntimo dela. No final ela morre, e o narrador, marcado para sempre pela garota, permanece só. O nome da menina dá título à história: "Lolita". Conhecemos a menina e sua história, conhecemos o título. Pensamos também conhecer o autor, mas nos enganamos. Seu nome era Heinz von Lichberg. "Lolita", de Von Lichberg, é um conto de 18 páginas publicado em 1916, 40 anos antes de seu homônimo famoso. A história é obra de um autor alemão de 25 anos que praticamente não deixou rastro nos arquivos literários. Mesmo em termos bibliográficos, ela é bem camuflada: "Lolita" está escondida dentro de um volume intitulado "The Accursed Gioconda" [A Gioconda Maldita]. É o nono da coletânea de 15 contos. Ainda em 1975 o livro podia ser comprado em um sebo de Berlim. É provável que, nos anos 1920 e 1930, fosse facilmente encontrável. Hoje, porém, só é possível vê-lo em algumas poucas bibliotecas universitárias. Quem foi o criador da primeira "Lolita"? O autor não é encontrado em nenhuma enciclopédia de literatura. A única obra de referência biográfica que o menciona nem sequer acerta as datas de sua vida. É perdoável, já que Lichberg era um pseudônimo literário. O verdadeiro nome do autor era Heinz von Eschwege. Descendente de uma família antiga de Hesse, Von Eschwege nasceu em 7 de setembro de 1890 em Marburgo, filho de um tenente-coronel da infantaria. Aos 7 anos ele perdeu sua mãe. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi tenente da Artilharia Naval. Nesse período, além de "A Gioconda Maldita" e de uma antologia de poesia alemã, ele publicou contribuições nos periódicos "Jugend" e "Simplicissimus". Depois da guerra -durante a qual tinha sido lançado um volume de seus próprios poemas- ele trabalhou em Berlim, como jornalista para os jornais do Scherl-Verlag, o núcleo do posterior império Hugenberg. Suas cartas traziam o cabeçalho Eschwege-Lichberg, e ele ainda se assinava Eschwege, mas publicava seus escritos sob o nome de Heinz von Lichberg. Ao ler o conto hoje e compará-lo com o romance, somos dominados por uma leve sensação de irrealidade e de déjà vu, como se tivéssemos entrado em uma das histórias labirínticas de Borges. A parte principal do conto, que possui pouco valor artístico, apresenta uma viagem à Espanha. O narrador anônimo, que escreve na primeira pessoa, parte do sul da Alemanha, depois de se despedir de dois irmãos idosos, proprietários de uma taverna que ele frequenta. Ele passa por Paris, chega a Madri e, depois, Alicante. Ali ele se hospeda em uma pensão à beira-mar. Seus planos não vão além de férias tranqüilas. Mas então algo acontece: após um breve adiamento, um vislumbre primeiro e fatal que não pode deixar de nos remeter à "Lolita" posterior [Companhia das Letras]. Nesta, o narrador na primeira pessoa Humbert Humbert faz uma viagem para encontrar um lugar calmo para trabalhar e que tenha um lago por perto. Na cidadezinha de Ramsdale ele visita a proprietária Charlotte Haze, que ele acha tão pouco atraente quanto sua casa. Decidido, em seu íntimo, a partir, ele acompanha a sra. Haze ao que ela descreve como a "piazza" do estabelecimento, e, de repente -"sem nenhum aviso prévio, uma onda azul ergueu bem alto meu coração"-, ele vê a criança imortal, o renascimento de seu primeiro amor de beira-mar: "Era a mesma criança -os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas flexíveis, nuas e sedosas, os mesmos cabelos castanhos". Da mesma maneira, o narrador de Lichberg só precisa de um vislumbre para se emocionar, e, da mesma maneira, a beleza da menina dele também possui o toque sombrio de um mistério do passado. "A pensão administrada por Severo Acosta era uma casa pequena e torta com balcões grandes, apertada entre outras casas semelhantes. O dono da casa, falador e amigável, me levou até um quarto com uma belíssima vista do mar, e não havia nada para me impedir de desfrutar uma semana de beleza sem perturbações. Até o segundo dia, quando vi Lolita, a filha de Severo. Ela era muito jovem para nossos padrões nortistas, com sombras sob seus olhos sulistas e cabelo de uma tonalidade incomum de ruivo dourado. Seu corpo era esbelto e flexível como o de um menino; sua voz, profunda e escura." Como Humbert, nosso narrador se sente imediatamente enfeitiçado e abandona qualquer idéia de partir. Sua Lolita, também, assim como a posterior Dolores Haze, é sujeita a sofrer mudanças violentas de estado de ânimo. Assim começa a descrição que Lichberg faz de uma paixão enigmática que leva o narrador a abandonar qualquer idéia de partir. Lolita é sujeita a caprichos e estados de humor variáveis. Será que ela quer algo dele ou não? Será que esconde segredos em sua alma de criança? Assim como no caso do agradavelmente surpreso Humbert Humbert, ao final é Lolita quem termina por seduzir o narrador, e não o contrário. O autor não o afirma claramente, mas suas elipses e seus rodeios não deixam ao leitor grande margem de dúvida. O texto é ao mesmo tempo tão pouco explícito e tão pouco ambíguo quanto cabe à época. Os dias e noites dedicados por um amante de meia-idade à doce boca de uma linda ninfeta se tornaram sexualmente indecentes apenas mais tarde, com Nabokov, que primeiro pensou em publicar seu manuscrito anonimamente e, mais tarde, escapou da censura por pouco. Apesar disso, a correspondência entre as tramas básicas, a perspectiva da narrativa e a escolha do nome da protagonista não deixa de ser notável. Infelizmente, porém, como observa Van Veen em "Ada", não existe lei lógica que possa nos dizer quando um número dado de coincidências deixa de ser acidental. Em sua ausência, não existe maneira de responder -e, é claro, menos ainda de deixar de lado- a pergunta inevitável: teria Vladimir Nabokov, autor da imortal "Lolita", o orgulhoso cisne negro da ficção moderna, tido conhecimento do patinho feio que foi seu precursor? Poderia ele -mesmo que apenas inconscientemente, já que presume-se que um citar consciente teria sido impensável- ter estado sob seu estímulo? Seja como for, Nabokov poderia facilmente ter cruzado o caminho do autor de "Lolita", o conto. Heinz von Lichberg viveu durante 15 anos na zona sudoeste de Berlim, praticamente no mesmo bairro de Nabokov. Quando criança, Nabokov passou por Berlim várias vezes, quando sua família estava a caminho da França. Um ano depois de a família fugir da Rússia, em 1919, seus pais e irmãos se mudaram para o distrito de Grunewald, em Berlim, onde Vladimir os visitava em suas férias de Cambridge. Em março de 1922 seu pai foi assassinado por um monarquista russo no Teatro da Filarmônica de Berlim. Naquele verão, Vladimir se mudou da Inglaterra para Berlim e -algo que não poderia ter previsto- permaneceu ali até 1937. Naqueles 15 anos em Berlim ele ficou noivo de uma alemã e se separou dela; conheceu Vera Slonim, casou-se com ela e tornou-se pai de um filho e, além disso, tornou-se Sirin, o escritor russo de maior destaque da geração jovem da época. Em Berlim ele escreveu nada menos que nove romances russos, e tinha quase concluído o décimo e melhor deles, "The Gift", quando deu início a sua conquista da literatura americana com "The Real Life of Sebastian Knight". Nada disso nos diz se Sirin-Nabokov pode ter lido a "Lolita" alemã. No que diz respeito a seus conhecimentos de assuntos alemães, Nabokov sempre se manteve reticente, quando não o negava simplesmente. Ele deixava subentendido que, isolando-se dentro da comunidade de exilados russos para evitar perder sua língua-mãe, ele quase não falava o alemão e não lia livros alemães. De fato, Nabokov nunca chegou perto de dominar o alemão como fazia com o francês. Mas não estava mentindo quando, no pedido que fez para obter uma bolsa de estudos Guggenheim, em 1947, afirmou ter "conhecimento razoável do alemão". De qualquer maneira, seria inimaginável que um gênio poliglota como ele pudesse viver em um país por tanto tempo sem alcançar pelo menos um comando passivo de sua língua. E sua antipatia posterior -e eminentemente compreensível- pelos alemães não impediu que seu "conhecimento razoável" da língua deles se estendesse a suas letras. Seu comentário sobre "Eugênio Oniéguin", de Puchkin, por si só revela uma erudição especialista que nem todo germanista seria capaz de demonstrar. Nabokov não apenas tinha familiaridade com os românticos e clássicos alemães como sua obra é pontilhada de alusões à literatura alemã. A célula original Ele valorizava ao extremo Goethe e Hofmannsthal, respeitava Kafka e desprezava Thomas Mann (cujo "A Montanha Mágica" estudou com a ajuda de um dicionário). Ele traduziu para o russo vários poemas de Heine e a "dedicatória" do "Fausto", de Goethe. Existem indicativos de que tenha lido Schopenhauer no original. Materiais menos corriqueiros também entravam em seu campo de visão: o material de base de seu romance "Despair" saiu de jornais alemães, e em um de seus contos ele lançou uma farpa contra "Bruder und Schwester", de Leonhard Frank, às vezes visto como a fonte de "Ada". Alguém que tivesse conhecimento de Leonhard Frank com certeza poderia ter topado com Heinz von Lichberg. Não como romancista, mas como jornalista do "Berliner Tages-Anzeiger", Lichberg estava permanentemente presente durante os 15 anos em que Nabokov viveu em Berlim. No entanto, supondo -digamos, graças a uma dessas coincidências mais freqüentes na vida do que devem ser em qualquer romance- que a coleção de "grotescos" do autor alemão tenha caído nas mãos do escritor russo, teria Nabokov se interessado pelo tema de "Lolita" já naquele momento de sua vida? Sim, com certeza. Vinte anos antes de concluir seu próprio romance sobre o tema, ele já incluíra um esboço dele na boca de um personagem secundário. "Ah, se eu tivesse um ou dois instantes de tempo", suspira o senhorio do protagonista em "The Gift", "que romance eu seria capaz de redigir!". "Imagine algo assim: um sujeito velho -mas ainda no vigor dos anos, fogoso, sedento de felicidade- conhece uma viúva, e ela tem uma filha, ainda uma menininha -você sabe o que quero dizer-, em quem nada é formado ainda, mas que possui um jeito de andar que deixa você louco, fora de si. Uma garota miúda, esbelta, muito loira, pálida, com sombras azuis sob os olhos -e, é claro, ela nem sequer olha para o velho safado. O que fazer? Bem, sem perder muito tempo pensando, ele se casa com a viúva. OK. Eles vão viver juntos, os três. Assim se pode continuar por tempo indefinido -a tentação, o tormento eterno, a ânsia, as esperanças loucas." E assim Nabokov de fato continuou, escrevendo, cinco anos mais tarde, em Paris, a novela "The Enchanter", em que a célula original de "Lolita" já forma um embrião completo. Dez anos depois ele começou a compor o romance, que, apesar das tentações do incinerador, concluiu vitoriosamente em Ithaca, na primavera de 1954. É interessante, porém, que Lolita, embora surja tão precocemente como figura e como tema, como nome surja apenas bem mais tarde. Nabokov disse ao primeiro comentarista de "Lolita", Alfred Appel Jr., que originalmente tencionou chamar sua heroína de Virgínia e intitular o livro "Ginny". No manuscrito, ela teve durante muito tempo o nome Juanita Dark. Foi apenas mais tarde que Nabokov descobriu mil razões pelas quais o nome Lolita, com o qual o livro começa e termina, se tornara essencial. De que profundezas de semiconsciência ou criptomnésia pôde o nome, atraído por alguma isca nova, ter ascendido à superfície? A figura de Lolita, em si, possui tanta semelhança com sua precursora hispano-germânica quanto qualquer menina pode ter com outra. Elas não são gêmeas, de maneira alguma, e a semelhança entre elas é passageira -tão passageira quanto o perfume do pó-de-arroz espanhol que percorre o primeiro amor de Humbert. Em ambos os casos Lolita é um diminutivo de Lola, em um caso de origem espanhola e, no outro, mexicana. Existe também, como Appel observou, um traço alemão na Lola de Nabokov. A "femme fatale" desse nome que aparece no filme "O Anjo Azul" [1930], de Sternberg, era representada por Marlene Dietrich, a quem Humbert certa vez compara a mãe de Lolita. Ao partir, ele chega a chamá-la de Marlene e, em outra ocasião, de Lotte, enquanto o sobrenome dela, Haze, é semelhante ao alemão Hase (coelhinha), como Nabokov confidenciou a um entrevistador da revista "Playboy" -talvez apenas para lisonjear a revista. O fato de Humbert certa vez chamar sua Lolita de "die Kleine" integra o mesmo pano de fundo espantosamente consistente. Nada disso, entretanto, aponta necessariamente para a Lolita primeira, de Lichberg. Entre as semelhanças entre a "Kleine" de 1916 e a de 1954, que certamente existem, uma delas, de qualquer maneira, diz respeito muito mais à "Ur-Lolita" própria de Nabokov. Lichberg dirige seu foco narrativo desde o início para o corpo esbelto de Lolita, "como o de um menino". Do mesmo modo, a primeira descrição que Humbert faz de Lolita, quando ela traz de volta a imagem de sua paixão infantil à beira-mar, canta seus "quadris pueris". Em vários momentos Nabokov, sem que isso dê na vista, a veste em roupas de menino; em uma ocasião Humbert a chama de "mon petit", em outro ele fala, embevecido, de seus "lindos joelhos de menino". Humbert não está citando Heinz von Lichberg, mas um jovem chamado Erwin. Pois a pré-história de Lolita tem origens mais distantes do que "The Gift". A primeira aparição de uma menina ainda não formada, cujo andar é capaz de enlouquecer um homem de idade madura, ocorre no conto "A Nursery Tale" (1926), de Nabokov. Na companhia de um velho poeta -em que, anos depois, Nabokov, para sua própria surpresa, identificaria um antecessor de Humbert-, uma criança-mulher passa por Erwin, que, ele próprio, não deixa de ter alguns pendores humbertianos, embora seja apreciador especial de "garçons manqués". "The Nursery Tale" não é o tipo de fábula que os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen nos convidariam a apreciar. Seqüência de pré-Lolitas Sua trama, tratada com elegância, brinca com uma fantasia masculina clássica. O diabo se oferece para realizar os tímidos sonhos eróticos de Erwin. Ele terá um dia no qual, por meio de seu comando mental, poderá escolher um número ilimitado de garotas para serem suas parceiras de folguedos. A décima segunda e última de suas concubinas é uma criança de cerca de 14 anos que aparece num vestido preto decotado: "Havia algo de bizarro nesse rosto, bizarro era o olhar fugaz de seus olhos muito brilhantes demais, e, se ela não fosse apenas uma menininha -a neta do velho, sem dúvida-, poder-se-ia desconfiar que seus lábios tinham sido retocados com ruge. Ela caminhava rebolando os quadris muito, muito levemente; suas pernas se aproximavam mais, ela perguntava algo a seu companheiro em voz alta -e, embora Erwin não tivesse dado nenhum comando mental, sabia que seu rápido sonho secreto tinha sido realizado". Aqui, sem dúvida, temos a primeira de uma seqüência de pré-Lolitas, uma cadeia que, desse momento em diante, não mais será rompida. Ela ainda não tem nome, mas já é uma ninfeta fatal, como Nabokov a descreveria mais tarde. E, desde o início, com sua primeira aparição em sua obra, a figura revela traços demoníaco-fantasmagóricos, aos quais o jovem autor ainda faz referência, sem se precaver. Erwin é convocado à "rua Hoffman" à meia-noite, por um demônio. Não há como deixar passar despercebida a alusão de Nabokov: os contos fantásticos do romântico alemão E.T.A. Hoffman interligam imperceptivelmente o sonho e a realidade demoníaca. Brian Boyd descreve "The Nursery Tale" como sendo "propositalmente hoffmanesco". Mas desse mastro literário corre um fio de seda que o liga ao "Lolita" alemão. Não ao final, mas já em sua primeira oração, o conto de Lichberg indica o modelo em cuja tradição ele se enxerga: "Alguém atirou o nome de E.T.A. Hoffman na conversa. Novelas musicais". Em companhia agradável, a conversa passa a girar em torno das relações entre arte e realidade, introduzindo uma narrativa interior. É essa a introdução convencional à história de Lichberg -um artifício do qual o próprio Nabokov, quando jovem, nem sempre se abstinha. A senhora da casa diz ao jovem escritor presente: "Você acha possível que essas coisas, sobre as quais eu raramente chego mesmo a ler, possam me manter acordada à noite? Minha razão me diz que são apenas fantasias, e, no entanto..." "É porque não são apenas fantasia, condessa!" O diplomata deu um sorriso bem-humorado. "Mas você não está querendo dizer que Hoffman viveu esses terrores!" "É exatamente isso o que quero dizer", respondeu o escritor, "ele os viveu, sim. Não, é claro, com suas mãos e seus olhos. Mas, como era escritor, ele viveu o que escreveu -ou, melhor dizendo, escreveu apenas aquilo que já vivera espiritualmente...'". É a deixa para a intervenção de outro ouvinte, um professor universitário que, até esse momento, se mantivera em silêncio. Ele quer relatar algo que pesa sobre sua mente há anos e que ele ainda não sabe se foi experiência ou fantasia. Assim começa a narrativa real de uma história altamente hoffmanesca, uma história cujo núcleo encerra justamente o tema que germinou na ficção de Nabokov dos anos 20 em diante. Eis a base da história. Na cidade do sul da Alemanha onde estuda, o narrador entra em uma taverna pertencente a dois irmãos idosos e estranhos, com barbas revoltas, ruivas com tons grisalhos. Ele se senta à mesa deles, recebe vinho espanhol para tomar e vê um lenço de cabeça de seda preta em uma cadeira próxima, do tipo que as garotas espanholas usam em dias de festa. Ocorre a ele que algo fora do comum pode estar acontecendo no lugar, mas ele não pensa mais no assunto. Certa noite, ao passar pela taverna, ele ouve vozes jovens iradas, alteradas, uma briga violenta e um grito de pavor saído da boca de uma mulher. Na manhã seguinte, porém, tudo no estabelecimento dos dois irmãos parece tão normal que ele coloca sua experiência em dúvida e tem vergonha de perguntar a eles sobre o que ouviu. Pouco depois ele parte em viagem à Espanha, na qual conhecerá Lolita, e o leitor descobrirá a solução do mistério. Lichberg batizou seus contos de "grotescos". A descrição não cai bem em sua "Lolita", que recebe tratamento mais condizente com um conto gótico ou mesmo com as histórias de fantasmas de Hoffman. Nabokov não estava acima de escrever romances fantasmagóricos ao estilo de Hoffman. Além da chamada "dimensão espectral" que já foi detectada em sua obra, ele não tinha receios em aderir a esse gênero resistente. Quando tinha a mesma idade em que Lichberg inventou sua criança-mulher espanhola, Nabokov-Sirin escreveu "La Veneziana", uma história que brinca com tropos dessa forma. O título e o tópico desse trabalho -que não deixa de ter atrativos- de sua fase inicial é uma pintura antiga que vem acompanhada de uma história incomum. O quadro representa uma beldade que possui uma semelhança espantosa com uma inglesa viva, mas que, na realidade, é -ou deve ser- uma senhora veneziana de vários séculos atrás. A semelhança é tão espantosa que o protagonista da história, que está apaixonado pela inglesa, passa sessões secretas sentado diante do retrato e, no final -como na história do pintor chinês-, desaparece dentro dela. A "Lolita" de Lichberg não vai tão longe assim. No entanto também com essa relação Nabokov poderia ter encontrado nela seu tema, como se fosse espelhado. O viajante na Espanha topa com um desenho na pensão que parece retratar sua amada. Mas a impressão é enganosa. ""Você pensa que é Lolita", sorriu Severo, "mas é Lola, a avó da bisavó de Lolita, que foi estrangulada por seu amante depois de uma briga, cem anos atrás."' Eis, também, a solução do mistério: o passado. Com ele, chegamos ao cerne da trama de Lichberg. Lolita não é apenas uma menina encantadora qualquer: ela é amaldiçoada e sofre de compulsão repetitiva demoníaca. O narrador fica sabendo desse passado assombrado quando finalmente decide partir, já temendo o amor perigoso de Lolita. "Nos sentamos, e Severo contou a história à sua moda amigável. Ele falou de Lolita, que, em seu tempo, tinha sido uma das mulheres mais lindas da cidade, tão bela que os homens que a amavam tinham que morrer. Pouco após o nascimento de sua filha, ela foi assassinada por dois de seus amantes, a quem ela atormentara até levá-los à loucura. E, desde então, foi como se uma maldição tivesse sido imposta à família. As mulheres sempre tinham apenas uma filha, e sempre morriam, dementes, algumas semanas depois de dar à luz uma criança. Mas todas as meninas eram lindas, tão lindas quanto Lolita! "Minha mulher morreu assim", ele sussurrou em tom grave, "e minha filha também morrerá.' Eu mal conseguia encontrar palavras para confortá-lo, pois o temor por minha pequena Lolita era mais forte do que todos meus outros sentimentos. Quando entrei em meu quarto, à noite, encontrei uma pequena flor vermelha, desconhecida para mim, sobre o travesseiro de minha cama. O presente de despedida de Lolita, pensei comigo mesmo, e a peguei em minha mão. Então vi que, na realidade, era branca, e que só estava vermelha por estar tingida com o sangue de Lolita. -------------------------------------------------------------------- Maldição, demonismo, compulsão repetitiva: são essas as correntes subjacentes às duas lolitas -------------------------------------------------------------------- Era assim que ela amava." Nessa noite o narrador é testemunha de uma cena fantasmagórica de assassinato. Ele pensa ver como Lolita -não: sua antepassada, Lola, "ou terá realmente sido Lolita?"- leva dois amantes à fúria e acaba sendo morta por eles. Nos assassinos, ele reconhece os gêmeos Aloys e Anton Walzer. Na manhã seguinte, ele descobre que Lolita morreu durante a noite. "Não posso descrever o que essas palavras me fizeram, e, se eu pudesse, seria como uma profanação falar disso. Minha amada Lolita, minha pequena, estava deitada em sua caminha estreita, com os olhos bem abertos. Seus dentes estavam cerrados convulsivamente sobre seu lábio inferior, e seus cabelos loiros e perfumados estavam revoltos." Com o coração partido, ele deixa a Espanha no navio seguinte. "Mas a alma de Lolita eu levei comigo." Anos mais tarde, ele retorna à cidade do sul da Alemanha, indaga sobre os irmãos Walzer e fica sabendo que, na manhã após a noite em que Lolita morreu, eles foram encontrados mortos em suas cadeiras de reclinar ao lado do fogão, com sorrisos amigáveis nos rostos. Maldição, demonismo, compulsão repetitiva: são essas as correntes subjacentes à outra "Lolita", também. A criança-mulher de Nabokov também é uma "revenant", a reencarnação de uma "gamine sans merci" anterior, fatal. Annabel, sua primeira paixão da praia, incute o desejo pelas ninfetas para sempre em Humbert. Ela lhe lança um feitiço do qual ele só poderá escapar ao deixar que ela reencarne em Lolita. O livro de Nabokov não trata de pedofilia, mas de demonismo. Humbert vive sob uma compulsão erótico-demoníaca. Já em seu "The Nursery Tale" é o demônio quem entrega a primeira Lolita ao herói. Isso não mudou em sua "chef d'oeuvre". De acordo com a queixa contundente de Humbert, é o próprio demônio quem o incentiva e o faz de tolo e quem, mais tarde, terá que lhe dar um descanso se quiser conservá-lo como seu brinquedo por mais tempo. Mas não é apenas Humbert o objeto das maquinações demoníacas. Por sua definição inconfundível, a ninfeta não é humana, mas demoníaca. Lolita é "o demônio imortal disfarçado em criança menina". Será preciso dizer que a Lolita de Lichberg também está presente aqui, nos bastidores? A menina de Lichberg também é metade demônio, metade vítima de uma maldição e, como seu amante, sujeita a uma compulsão vinda do passado. Em Lichberg, há até mesmo um prazo temporal preciso para o feitiço entrar em ação. Quando o narrador deixa Lolita, ela o morde na mão com toda a força de sua boquinha. "Essas cicatrizes do amor", confessa a vítima a seus ouvintes, "se conservaram indeléveis, mesmo 25 anos mais tarde." Encontramos o mesmo intervalo de tempo quando Humbert vê Lolita pela primeira vez -seu primeiro amor reencarnado, aquela de cujo encantamento ele jamais escapou: "Os 25 anos que vivi desde então reduziram-se a um ponto latejante e se desvaneceram." Perda de identidade Em seu caso, também, um quarto de século não foi capaz de extinguir a magia do primeiro amor-maldição. E o padrão -é o padrão de todas as histórias de amor e de morte- persiste. O que se repete compulsivamente ao longo dos anos sempre termina por explodir em violência. A história de Lichberg nos conduz à cena, que lembra um sonho, de um assassinato dramático e grotesco. A cruel Lola chama seus amantes a competirem por ela. Ela amará aquele que se revelar mais forte -eles crescem até seus ossos racharem; amará o mais velho -o cabelo cai de suas cabeças; amará aquele que tem a barba mais comprida e feia -longos pêlos ruivos se projetam dos rostos distorcidos dos irmãos Walzer, que então, aos gritos de fúria e desespero bestial, se atiram sobre Lola e a estrangulam. "Fale pela última vez -ou irás ao inferno com sua beleza três vezes amaldiçoada." O final do livro de Nabokov também é uma morte fantasmagórica, que lembra algo saído de um sonho. Humbert e Clare Quilty, os dois amantes de Lolita, se misturam nessa cena, tornando-se os gêmeos que foram desde o início em Lichberg. O sedutor de Lolita, Quilty, é a sombra escura de Humbert, seu segundo eu. Em sua briga, eles chegam a perder suas identidades gramaticais: "Rolei sobre ele. Rolamos sobre mim. Rolaram sobre ele. Rolamos sobre nós". Quando Humbert finalmente consegue matar seu alter ego -o que é difícil, já que as balas no corpo de Quilty, em lugar de destruí-lo, parecem lhe infundir nova energia-, ele sela sua própria sorte. Algumas semanas mais tarde, também Humbert, o sátiro trágico, é um homem morto. A arte tem a última palavra No conto de Lichberg, não é o rival quem é morto, mas a mulher. Mas Nabokov também brinca com essa variante. Não apenas o "leitmotiv" de citações de "Carmen" atrai seu leitor até o fim por essa trilha falsa, sugerindo que o amante traído pode acabar por disparar contra sua amada infiel. Mesmo em seu adeus a Lolita, Humbert flerta com a idéia de sacar seu revólver e fazer algo estúpido. Como sabemos, a grávida senhora Schiller, em quem Lolita se transformou, é poupada desse fim. Indiretamente, porém, a maldição ainda parece se irradiar da obra de Lichberg. Lola é assassinada logo após a morte de sua filha. Lolita morre nas semanas seguintes ao parto de sua filha natimorta. A última palavra, é claro, não é da morte, mas da arte. Lolita e sua história, repleta de sangue, tutano e lindas moscas verdes reluzentes, fazem de Humbert um escritor. O romance termina com sua esperança da única imortalidade que ele e sua musa poderão dividir: o refúgio da arte. O amante do conto de Lichberg segue o mesmo caminho. Também ele é iniciado na arte por Lolita. Quando conclui sua história, a condessa -que o ouviu de olhos fechados- murmura: "Você é um poeta". Existem apenas três possibilidades, pelo menos até que alguém nos mostre uma quarta. A primeira é que estamos na presença de uma dessas coincidências fortuitas que ocorrem repetidas vezes na história da arte e da ciência. Essa possibilidade não pode ser excluída. Mas, pelas barbas do profeta, isso seria um verdadeiro milagre. A segunda possibilidade é que Nabokov tinha conhecimento do conto de Lichberg e, metade inserindo e metade apagando seus rastros, se prestou àquela arte da citação à qual Thomas Mann, ele próprio mestre nela, dava o nome de "plágio de alto nível". Plágio? Um absurdo. Afinal, a literatura sempre envolveu a repetição de motivos já familiares: em que ela consiste, senão em literatura? Entretanto, deixando isso de lado, essa segunda possibilidade é tão improvável quanto a primeira. Ela não combina com Nabokov. Alusões a Poe, Proust ou Puchkin, a Shakespeare, Chateaubriand ou Joyce, que pululam em sua obra, possuem uma valência que alusões a um escritor menor e desconhecido jamais poderiam ter. Nabokov não tinha necessidade de plagiar e tampouco teria enobrecido um Von Lichberg, citando o nome de sua heroína. Isso deixa a terceira possibilidade como o palpite mais plausível. De alguma maneira misteriosa, ""A Gioconda Maldita", de Lichberg, caiu nas mãos de Nabokov. Folheando o livro, ele poderia ter topado com a história da ninfeta, e assim o tema teria começado a passear por sua mente. Ele esqueceu a história ou pensou tê-la esquecido. Também desse fenômeno, a criptomnésia, a história da arte oferece exemplos suficientes. Décadas mais tarde, atraídos à superfície por novas iscas, nomes e partes dos detalhes começaram a sair das profundezas de sua memória. O momento de maior acerto ao escrever, explicou Nabokov em entrevista que concedeu à televisão em 1966, lhe ocorria quando ele se percebia indagando: "Como isso veio até mim? Como é que existia em minha cabeça antes mesmo de eu pensar nisso?". Tal é a graça da inspiração. Como a bênção bíblica de duas faces, ela pode vir do alto, mas também pode ascender dos calabouços da memória. O patinho feio e o cisne soberbo -se essa imagem remete em demasia aos contos de fada, ela também pode ser expressa mais tecnicamente. Heinz von Lichberg, que não deixava de possuir talento, mas era abertamente imaturo, se ocupou em fabricar sua "Lolita" com pano, madeira, papel e barbante. Vladimir Nabokov usou materiais semelhantes -mas, com eles, criou um papagaio que desapareceu no céu azul da literatura. -------------------------------------------------------------------------- Michael Maar é pesquisador e ensaísta alemão. A versão integral do artigo acima foi publicada no "Times Literary Supplement". Tradução de Clara Allain. ----- Original Message ----- From: D. Barton Johnson To: [log in to unmask] Sent: Monday, August 02, 2004 3:33 PM Subject: Fw: O amor, em Vladimir Nabokov, tem essa consequЙncia extraordinariamente ... ----- Original Message ----- From: Jansy Berndt de Souza Mello To: D. Barton Johnson Sent: Monday, August 02, 2004 8:43 AM Subject: Re: O amor, em Vladimir Nabokov, tem essa consequência extraordinariamente ... PS: I forgot to tell you that "suspension dots" in Portuguese are called "reticências" ( "reticences" wouldn´t seem to be VN´s tactics ...nor the dotting lines on the wings of the butterfly, nor VN´s play with "Dolores" on a dotted line). J.
[text/html]

m0407200401.jpg [application/octet-stream]


Back to: Top of message | Previous page | Main NABOKV-L page

LISTSERV.UCSB.EDU CataList email list search Powered by LISTSERV email list manager